Natal de Elvas - 2016
Arquivo/©José Silva
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Opinião de Risoleta C Pinto PedroEu hei-de m’ir ao presépio
e assentar-me num cantinho
a ver como o Deus Menino
Nasceu lá tão pobrezinho

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Esta é uma das quadras do tradicional Natal de Elvas. Há uns anos, cantei-o e fiz o solo na Sé de Lisboa. Estava tão emocionada que até me faltava a respiração. Se tivesse sido na Sé de Elvas acho que teria mesmo desmaiado. Eu não podia respirar a meio das frases musicais, mas não foi fácil. Por ser o Natal da minha terra, por saber ser uma das músicas ao Menino cantadas pelo meu avô, nas noites de Natal, à lareira. Avô que se considerava ateu… imaginem se assim não fosse.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Se participei nestas festas em casa dos meus avós em S. Vicente, terá sido até aos dois anos, não guardo memória delas, mas tenho sim, uma espécie de lembrança visual, como se lá tivesse estado anos a fio.

Em Alenquer tínhamos uns amigos do Alentejo e cantava-se como se lá estivéssemos. O perfume das azevias fazia o resto. Por isso, para além do presépio, cuja encenação remonto em todos os inícios de Dezembro, também, desde que os meus pais deixaram de ter saúde suficiente para fazer as azevias, retomei eu o fio da tradição, com os ingredientes que nesta época se tornam sagrados. O azeite é ouro líquido, as laranjas parecem sóis e transportam-me à Andaluzia, a canela cheira a caravelas, os limões a norte de África, a banha tem um perfume quente e doce, antigo, e o grão possui toda a força da semente germinando sob as papilas gustativas.

O musicólogo Mário de Sampayo Ribeiro data a origem do Natal d’Elvas no final do século XIX e o etnólogo Tomás Pires, de Elvas, já em 1902 fixa algumas das quadras, nomeadamente aquela com que se inicia esta crónica. Fala ela dos meninos que não nascem em berço de oiro.

Azevias-de-grãoCuriosamente recebi há dias, na véspera de Natal, um livro precioso que terá pertencido a meu avô, aquele que se dizia ateu, José Francisco Pinto, não sei se terá sido o seu livro escolar, mas pode bem ter sido e recebi-o como tal. Está quase desconjuntado, pelos anos, pelo uso, mas para mim representa quase um livro santo. É um “Livro de Leitura para as Escolas de instrução Primária”, por Alfredo Teixeira Pinto Leão. Terceira edição, de 1879.

Folheando-a, encontro, nas suas páginas, um poema intitulado “O Natal do Pobresinho” [sic], de António Feliciano de Castilho, onde, tão ao gosto romântico, é salientado o contraste entre a riqueza e a pobreza. Acaba por ser tema que atravessa grande parte da literatura, como o naturalismo, igualmente afeito aos contrastes, bem como o neo-realismo e a literatura contemporânea de cariz humanista e social.

Canta Castilho:Natal-de-Elvas-azevias

Frio e fome (coitadinho!)
Como ave implume e sem ninho,
Vae, sem lhe importar caminho,
Vae, sem saber onde irá;

Exactamente como a sagrada família na sua errância antes de encontrar a gruta e a manjedoura. Nesta família não é difícil -nos no simbolismo e transformarmos a palha em ouro. Mas em relação aos meninos quotidianos, assim como nós, ficamos mais centrados na impotência, na injustiça, na revolta e na dor. E depois… nada.

Vamos fazer azevias. E tudo isto é muito humano.

livro da avôO alentejano D. João IV, nascido em Vila Viçosa em 1604, terá composto uma melodia que hoje é cantada em todo o mundo, “Adeste Fidelis”. Natal é música, e o Alentejo também.

Azevias são uma espécie de música com poema dentro, para comer. As metáforas são laranjas, o grão, os limões, a canela…

A todos, os votos de um Natal renovado e renovador. Apesar do caos. A evolução é uma realidade, mas quando a humanidade tem mesmo de mudar, por vezes é preciso este caos para que não permaneça nas mornas meias tintas e avance. Pode ser que um dia venha a ser diferente e a mudança possa fazer-se sem inferno, apenas com a doçura das azevias e das músicas de Natal. São estes os meus votos para todos nós.

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.