Natal em liberdade

Opinião - Risoleta Pinto Pedro
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Nesta época, vem-me constantemente à memória a imagem do meu avô ateu cantando com entusiasmo e convicção, no Alentejo, cantigas ao Menino Jesus. Para mim, ele é uma imagem da perfeição no que se refere à espiritualidade. Não o considero caso nem modelo único, mas foi um modelo que pude conhecer e reconhecer como um estímulo à ideia de liberdade de pensar e agir. Já seria notável se, sendo de uma religião, tivesse abertura para praticar o ritual de uma outra. No caso dele, não só não tinha religião como era levemente anti-clerical, mas tinha uma ternura especial pela figura radical e revolucionária de Jesus, prezava as tradições e não tinha receio de as seguir, preservar e praticar, arriscando a sua imagem de espírito livre.

Pela minha parte, nada tenho contra as religiões, eu própria fui baptizada no ritual cristão, mas tenho a consciência de que muito das religiões, e não deixo nenhuma de fora, longe de religarem, como a etimologia indica, separam, dividem, espartilham.

Contudo, algumas pessoas, mesmo estando ligadas a uma religião, conseguem manter um nível de consciência superior aos limites da mesma. Nem todas. Outros, mesmo sem religião, e mesmo ateus, estão presos aos limites da sua não-crença, que é uma espécie de crença pela negativa. O pior da religião, fora dela. Acredito que futuramente as religiões deixarão de fazer sentido, e aí incluo o ateísmo militante, uma espécie de não-religião. Isso acontecerá no momento em que o ser humano se tornar realmente adulto e responsável, sem necessidade de pedir, suplicar ou esperar benesses que não venham de dentro de si mesmo. O que ainda é raro encontrar-se.

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O fundamentalismo das religiões, os dogmas e as crenças, dão cabo da liberdade neuronal da humanidade. Com isto, não culpo as religiões, mas as facções nelas que as limitam. Que se sinta visado quem assim olhar a realidade.

No fundo, se existem algumas diferenças entre seitas e religiões, comungam todas da etimologia da palavra seita. E uma religião, quando se considera a única verdadeira e todas as outras falsas, está a excluir, logo, a criar separação entre si e as outras, isto é: torna-se uma seita, naquilo que a palavra etimologicamente significa no latim (secta): aquilo que foi partido; divisão ou facção.

Grupo Roncas de Elvas
Grupo Roncas de Elvas/Arquivo

Ora, existam ou não seres em outros mundos, desta ou de outras dimensões, eventualmente mais ou menos avançados do que nós, não piores nem melhores do que nós, tenho tendência a acreditar na evolução. A qual é incompatível com a adoração no sentido de alguém de baixo se prostrar perante alguém acima. Como podemos nós emparcelar-nos em categorias por ordem de bondade?

Uma civilização eticamente mais avançada, que pensaria de uma humanidade que não se respeita e não respeita os seus irmãos, que não respeita as espécies abaixo de si? Se fosse realmente mais avançada teria compaixão, se o seu avanço fosse apenas técnico, o que poderia fazer de nós? Como sabemos se isso não aconteceu já?

Somos livres? Somos responsáveis? Somos independentes? Somos solidários? Somos compassivos? Somos sábios? Somos tranquilos? Somos generosos?

Não o somos. Já existem alguns, mas precisamos de mais. Não faz mal. É uma questão de tempo. Lembramo-nos disso? Se o fizermos, será mais cedo, se o esquecermos, será mais tarde.

Entretanto os Natais vão-nos lembrando, com um Menino desamparado e rendido à humanidade, que existe algures, dentro de nós, alguém que canta ao Menino Jesus, a criança inocente comum a todas as religiões. Talvez cante baixinho, mas já se consegue ouvir. Meu amigo leitor, está a ouvir o mesmo que eu? Aquele coro de crianças com vozes de anjos cujo som se vem aproximando quase imperceptivelmente? Sei que estamos a ouvir o mesmo. Desejo-lhe um Natal como quando era menino, se teve Natal e foi feliz, caso contrário, desejo-lhe um Natal como os do futuro, acreditando que não será tão grosseira como hoje a imitação da luz.

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Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.