Fogueira
©António Serra
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Opinião de Risoleta C Pinto PedroSão conhecidos, por experiência própria ou por ouvir falar, a quem vem acompanhando o movimento da Filosofia Portuguesa, os encontros dos Reis. Refiro-me a encontros/tertúlia que desde o início dos anos cinquenta se vêm realizando, inicialmente por iniciativa de Afonso Botelho, umas vezes com mais, outras com menos vigor e presenças bem como algumas interrupções e reactivações. Há referências em textos vários e testemunhos de boca a ouvido, com narrativas de episódios mais ou menos interessantes, mais ou menos pitorescos. Num texto intitulado “Os Reis Magos e a Tradição Portuguesa”, publicado inicialmente em 1955 na revista Cidade Nova é dito num texto introdutório, provavelmente de Afonso Botelho: «Vai para cinco anos que um grupo de amigos se reúne, em casa de um deles, para conversar sobre filosofia». É uma ideia que me agrada, a reunião de amigos para conversar não sobre uma coisa qualquer, mas sobre algo que possa ser edificante e possa estruturar a reflexão para lá da banalidade das conversas casuais, que tendo o seu interesse e espaço próprios, por vezes tendem a invadir todos ou demasiados domínios. Nunca participei destes encontros, mas confesso que lamento não ter podido estar presente, pequenina, a ouvir, a um canto, discreta, sem ninguém dar por mim, em determinados momentos particularmente estimulantes quando contaram com a presença de alguns pensadores que admiro. Mas o que me traz hoje a este assunto é o momento que estamos a viver, pouco dado a reuniões. O Natal vai ser austero em termos de expansão de afectos, e a passagem de ano, que não cultuo particularmente na forma como normalmente é festejada, mas tenho procurado viver em grupo, com amigos, não forçosamente falando de filosofia, mas não nos limitando ao champanhe e às passas, antes trazendo alguma consciência colectiva para o momento de passagem e transição, não sei como será este ano, mas será, certamente, ainda mais sóbrio em termos numéricos, que no tom já o era. Vivíamo-lo em casa, intimamente, numa alegria serena de estarmos vivos e imaginarmos o futuro. Quanto ao Natal, sempre tive tendência para estar atenta aos que, por alguma razão, teriam de o passar sozinhos. Recordo por esta altura, particularmente, o meu avô de S. Vicente, que sem ser formalmente um filósofo, mas «aspirante a filósofo», como gravou no seu cartão-de-visita, gostava de se reunir regularmente com amigos para falarem de tudo o que tivesse a ver com conhecimento, fosse filosófico, científico ou técnico. No Natal era com a família, e este homem que não se considerava crente, mas cujo comportamento solidário ainda hoje é conhecido, era o mais entusiasta no cante ao Menino, junto da chaminé. Não era filósofo, mas tinha a atitude que muitos deles não têm. Não era crente, mas tinha uma prática cristã que não vejo na maioria dos que assim se intitulam.

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Hoje, somos convidados a viver o Natal (e não faço comentários nem juízos de valor sobre isso porque não é esse o meu propósito agora aqui), à imitação da gruta de Belém antes de chegarem os visitantes, na família nuclear um pouco alargada, mas não muito, e as festividades de fim de ano com alguma tolerância de movimentação e horários, não por se colocar a importância destas ao nível do Natal, mas por solidariedade com os restaurantes e hotéis. Espero, com muita ênfase, que a pandemia não nos cegue para a existência dos nossos próximos, que matar o Natal naquilo que tem de solidário e de encontro connosco no outro não se torne viral.

Voltando às tertúlias dos Reis da Filosofia Portuguesa, eram elas, segundo o testemunho do referido texto introdutório, adoçadas pelo bolo-rei: «É a prenda encontrada que determina o orador do ano seguinte». Mas «não podia ser, com efeito, a conversa sobre filosofia uma conversa desprevenida, fruto de encontros ocasionais, como aqueles em que, tão frequentemente, se empenham literatos e artistas, para dizer mal uns dos outros, fazer oposição de obras e de pessoas, com o fim de engrandecer e fortificar a própria posição do grupo a que pertencem. As conversas a que nos referimos não têm por causa a intenção de “converter” o outro ao mesmo e partem por isso de um sentido de catolicidade que, não sendo o “eclesiástico”, por nenhum aspecto o contradiz».

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Recordo que o termo “católico” tem o sentido etimológico de “universal” e como tal abrange todo o catolicismo, todo o cristianismo, todas as religiões, filosofias e o contrário disso tudo, ou não poderia ter o sentido que tem.

Por iniciativa de António Telmo, houve uma reactivação destes encontros parados durante algum tempo, por volta de 2006, e passaram a ter lugar no Alentejo, mas daí, sem ter lá estado, tenho a certeza que se avistava o mundo.

Do ponto de vista temático, havia nestas reuniões uma reflexão sobre a lenda dos Reis Magos contendo em si o mistério da Epifania, e mantendo a presença da tríade: solenidade, tradição e espírito de família.

É muito curioso o que diz o acima referido texto sobre a solenidade, acentuando não ser a dos Congressos, pois com «esta solenidade exterior só aparentemente se começará a consagrar a filosofia portuguesa, visto que, de tais reuniões, dirigidas predominantemente aos sentidos da vista e do ouvido, apenas se deduz a visão e a audição do que já existia, ou do que não existia nem jamais existirá. São, portanto, reuniões do senso comum e da fantasia colectiva.»

Filhós de Natal
Filhós de Natal

No discurso de Álvaro Ribeiro que se segue à introdução, é dito: «Falar solenemente é falar uma só vez por ano, como nos diz a semântica». E era aqui que eu queria chegar. Quando, em criança ou agora, eu embrulhava ou embrulho as figurinhas do presépio até ao ano seguinte, eu sabia e sei que muito que Ele, misteriosamente, estivesse e esteja sempre no meu horizonte afectivo, apesar de não haver em casa nenhum tipo de estímulo nesse sentido era uma coisa nascida em mim e comigo, eu sabia que só voltaria a ter “aquela conversa” com o Menino Jesus no ano seguinte. Solenemente. No escuro da sala, no silêncio da sala, sentada no chão junto ao presépio apenas iluminado por uma pequena lamparina de azeite eu teria com Ele a conversa anual íntima e solene, conversa que era um abraço não apenas a Ele, mas a todo o Universo que Ele para mim representava e continua a representar. Para lá de todas as religiões, para lá de todas as crenças, para lá da crença. Era uma verdade dentro de mim sentida e silenciada, por intransmissível. Mas, e voltando a citar Álvaro Ribeiro eu já tinha o sentimento. sem saber o que isso significava, de uma «hierogamia, o pensamento que abraça», para comunicar «vida, as verdades de todos os homens e de todos os povos. Tal como a luz, tal como as cores, tal como os estados da matéria.»

Presépios de Estremoz
Presépios de Estremoz

Termina esta reflexão do filósofo Álvaro Ribeiro para uma das tertúlias do início dos anos cinquenta, afirmando que existe «uma espiritualidade fora da religiosidade que só a família conserva». E acrescenta que quem mais se tem mantido e conservado fiel às tradições tem sido o povo. «O povo analfabeto, celebrando nas suas aldeias e nos seus lares o dia de Reis. Ele resiste, quanto pode, à industrialização do calendário». Concluindo, magistral: «tão religioso é o jogo, como a arte, como o trabalho».

Gostaria que este estado laico, e recordo a etimologia da palavra: relativo ao povo, e mais correntemente secular, entendesse o termo não como perseguição aos costumes, crenças e tradições populares, como já aconteceu no liberalismo e numa certa república, mas com o respeito e sentido de defesa deste representante e “conservador” (no sentido mais verdadeiro e nobre) do que de mais antigo e perene existe na nossa cultura.

Voltando às tertúlias, valeu a uma delas ser a inspiração de um poema de António Telmo, um dos mais surrealistas e encriptados, saindo da linha da sua escrita. Difícil será imaginar o que terá dado azo a tal poema. Pelo contrário, bem literal, político, crítico e claro é outro dedicado ao Ano Novo:

Os Reis Magos«Vem aí o Ano Novo/ O povo alegre grita/ O país é como um ovo/ Que um novo governo frita.// Todos falam, ninguém acerta, / Nesta passagem do ano/ Anda tudo de boca aberta/ Neste pobre mundo insano. […]»

Este é um dos lados da cortina. Aquele que denuncia o que se passa à superfície do país. E que continuamos a ver. Outro, mais requintado e subtil, procura chegar às profundezas e compreender a razão das causas. Através da razão poética, imaginação e símbolo. O Menino nas palhas é um eloquente exemplo, os Magos viajantes são outro. Entre eles, um ano que termina, outro que se inicia. Nesse hiato entre um e outro, no não-espaço, no não-tempo, talvez alguma coisa de ouro que não se vê, um presépio feliz e acolhedor a lembrar o que realmente importa e anda tão esquecido. Que cada um o procure na tertúlia do seu coração. Ele está lá. Caro leitor, tenha um doce e terno Natal e se puder, cante. Cante ao Menino, que ele há-de ouvi-lo e regozijar-se-á com a sua alegria sem porquê, mas por tudo.

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Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.