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Nossa Senhora Magrebina

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©João P. Canhoto

A freguesia onde nasci chama-se S. Vicente e Ventosa e a aldeia é S. Vicente. A Ventosa tem uma capela erguida sobre uma elevação. A aragem é activa, o que justifica o nome. No início de Maio realiza-se uma procissão, seguida de missa, almoço e divertimentos. Há quem acampe e ali fique toda a noite. Já lá estive em dia de festa, já lá estivera quando a capela se erguia solitariamente sobre o monte. A Natureza sem gente é muito mais profunda.

Segundo informação colhida em página local (não sei se oficial), a aldeia da Ventosa é formada por «Montes, Quintas, Herdades e Fazendas» e acabou (já é interpretação minha) por ser anexada à freguesia de S. Vicente.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Mas aonde quero hoje chegar é à Nossa Senhora da Ventosa, embora quando nos conhecemos tenha sido ela que veio ao meu encontro. Na verdade, eu fui para onde ela teria de se dirigir, não lhe restando alternativa que rumar aonde eu estava. E assim se deturpa a verdade, espero que me perdoem os meus desvarios interpretativos. Segundo apurei, não sei se é pura verdade, esteve a imagem desaparecida durante muitos anos e até li umas quadras muito curiosas sobre o caso, que uma tia minha me mostrou. Não foi há muito tempo que a procissão e festa se reanimaram.

Quando lá estive em dia de festa, cheguei mais cedo com mãe e tia, porque devido às suas idades não só se afigurava impossível a subida a pé em procissão, como era preciso garantir estacionamento próximo. Ficámos, assim, assistindo à aproximação de uma estranha serpente humana que se dirigia, atravessando planície, até ao cume onde se encontra a ermida. Mas o mais surpreendente foi o encontro com a imagem, uma vez chegada.

Desconheço a data de criação da mesma, mas acredito que os símbolos e arquétipos têm uma força que não imaginamos, nas nossas mentes individuais e colectivas. Quem quer que tenha sido o criador da imagem, estava perpassado pelo arquétipo do norte de África, ali tão perto. Se olharmos a Senhora de perfil, o que vemos é uma magrebina em todo o seu esplendor e beleza. Não uma beleza aristotélica, europeia, convencional, mas uma beleza viva e de certo modo esfíngica, que transporta através dos tempos o lado feminino da divindade, a universalidade, o mistério da relação entre os humanos e os deuses. Tirei fotos a que não tenho acesso no sítio em que me encontro hoje, mas Maio está próximo e recomendo uma “romaria” à romaria, passe a redundância, e dir-me-á o leitor se não tenho razão…

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.