Opinião - Risoleta Pinto Pedro
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Confessei há pouco, em crónica de outro jornal onde escrevo, que tenho um problema. É um problema de abundância, queixava-me de ter terras a mais. Sete terras e vinte casas.

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Em criança vivia com uma espécie de consciência nómada, como cigana, pelo que não me surpreendi quando em Vila Franca de Xira, uma das localidades por onde passei e onde vivi durante um ano, um acampamento de ciganos tenha vindo parar às traseiras do prédio onde vivíamos, numa das extremidades da vila. Estávamos todos em casa, no nosso nomadismo, eu apenas tinha mais conforto, eles mais liberdade. Escapulia-me para brincar com as crianças, mas isso não era muito bem visto pelos meus. Contudo, gostava mais destes companheiros do que dos da escola. Uma vez houve um casamento que durou vários dias. Recordo-me de ter acompanhado de perto diversos momentos da interminável festa, e até provei algumas guloseimas que as crianças me trouxeram.

ciganos alentejoMal me adaptava a uma casa, a uma escola, a novos amigos, lá “levantávamos a tenda” e tudo recomeçava. As casas eram quase zen, vivíamos com o indispensável, não era possível andar sempre a transportar muitas coisas de um lado para o outro. Uma das casas encontrava-se mobilada, foi uma sensação estranha, um espaço sem espaço, cheio de coisas, talvez por isso tenha permanecido a tendência para encher excessivamente as minhas casas de adulta e depois o desejo de as ver mais vazias. Uma duplicidade difícil de resolver.

Tive de aprender a habitar os espaços com sentimento de provisório que ainda hoje conservo interiormente, a fazer amigos sem preconceitos, a manter no meu coração os que eu não queria que ficassem para trás. Valia-me a estrutura de uma família sólida, que me dava chão e estabilidade no meio da viagem que era a minha vida.

A minha verdadeira raiz ficara para trás, apenas nas férias podia alimentar-me de Alentejo como camelo no deserto, engolindo e guardando grandes quantidades de experiências, emoções e memórias, o máximo que conseguia, para armazenar e ir saboreando e ruminando ao longo do ano.

A fronteira nunca me fez frente, Badajoz e a sua estepe foram sempre uma extensão de Elvas e sua planície.

A recente família fora viver para Santa Eulália, mas antes do momento do meu nascer houve uma deslocação à aldeia vizinha, S. Vicente, onde viviam os meus avós, e onde eu havia de irromper, seguindo-se o regresso a casa. Para quem sempre gostou de ficar sossegada num canto, um desassossego logo ao nascer. O meu nascimento foi uma dupla visita: ao planeta e aos meus avós. E logo regressámos à provisória base, como eu iria perceber mais tarde. Daí, ainda hoje, o meu sentimento de não saber bem de que terra sou. As terras foram-se multiplicando como peixes. Quanto às casas, nem vale a pena falar. Ainda hoje não compreendo por que razão tínhamos sempre de mudar de casa em cada terra. Nunca tivemos menos de duas. Como se fôssemos foragidos, que não éramos. Que eu saiba. Foi um atavismo que me ficou até hoje, embora possa considerar que actualmente permaneço na mesma casa “há eternidades”. Não que isso me custe, pelo contrário, apenas o verifico com algum espanto. É como se tivesse feito um corte com o hábito, mas nunca se sabe. Talvez esteja a falar cedo demais.

Intercidades Linha do AlentejoDe uma coisa tenho a certeza: a absoluta necessidade de ir, regularmente, ao útero-terra onde nasci. Em criança, o transporte que usávamos para o nosso eterno retorno que geralmente acontecia por volta do Carnaval, Páscoa ou Verão, era o comboio, um meio de transporte que ainda hoje me fascina e que representa para mim, com suas passagens pelos túneis, uma certa vivência iniciática e misteriosa, com o ronronar constante, o embalo, como se mais uma vez estivéssemos a ser transportados num grande útero, a atravessar um escuro túnel, ao modo de quando aqui aparecemos.

A grande planície alimenta-me de espaço, beleza, mistério, passado e amor.

Pelas janelas, durante a longa viagem, eu via muitos acampamentos de ciganos, por vezes as carroças formavam uma espécie de comboio com suas carruagens estacionadas em fila e os animais tranquilamente pastando. As crianças acenavam e vinham a correr durante algum tempo tentando acompanhar a velocidade do comboio.

CP - Estação de Santa EuláliaQuando não posso ir ao Alentejo, sofro de privação, saudade e sentimento de autoexpulsão. Vontade de voltar a ser novamente uma pequena nómada atravessando o deserto possível, travessia pelo meu interior enquanto cruzando o espaço. Vale-me a escrita, o refúgio onde todas as dores, mesmo as do exílio, são regeneradas. Assim, todas as quinzenas regresso, por isso agradeço a Elvasnews a estação e apeadeiro onde sou recebida, e a Graça Amiguinho a subtil via férrea que ma deu a conhecer, e por onde viajo sem tempo e com todo o tempo, num espaço grávido de não-espaço.

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Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.