Cidade de Portalegre
©João Carvalho
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Não somos apenas uma enorme planície, estradas a perder de vista, ladeadas de árvores de troncos listados de branco.

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Somos o fruto de uma geração que lutou e sofreu sem disso fazer alarde.

Somos as hastes das videiras ressequidas pelo sol agreste do verão.

Somos o sabor da azeitona colhida no rigor do inverno, enregelando as mãos.

Somos a espiga de trigo que carinhosamente nos mata a fome.

Somos a papoila vermelha que salpica toda a seara e docemente alegra a paisagem.

Somos a lembrança das mãos calejadas de quem abria os sulcos na terra com o arado.

Somos o peito marcado pelo cajado do pastor nas horas de solidão.

E mais ainda, sentimos na pele o suor da ceifeira e na alma o seu cante.

A tudo temos resistido, contra ventos e marés; sem termos mar, temos remado.

Queremos que a nossa terra alentejana seja um lugar onde todos tenham paz e nela possam viver e trabalhar.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo, a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho

A minha geração, dolorosamente, teve que partir, em busca de trabalho, para mais perto ou mais longe, ou até, para além fronteiras.

Abril trouxe uma esperança que ainda está por cumprir, integralmente.

Por vezes, fica-nos a sensação de que, aqueles que melhor poderiam olhar pelo futuro da nossa região, pelo seu progresso económico e cultural, têm os olhos postos no horizonte, esquecendo-se de olhar à sua volta.

Se esse olhar distante tivesse como objectivo aprender com quem faz do seu saber uma oferta ao bem comum, talvez o nosso Alentejo, hoje, não tivesse tanto a lamentar, deixasse o seu pessimismo e acreditasse que é possível construir um futuro mais próspero, mais rico culturalmente, dando a todos os cidadãos com capacidades, as oportunidades que, muitas vezes, ficam limitadas a um pequeno círculo que se torna vicioso e viciado, por serem sempre os mesmos a colher os benefícios.

É triste, deprimente, até, ouvir falar da capital de distrito do Alto Alentejo, a ancestral cidade de Portalegre, como uma cidade isolada, longe do progresso, amortecida pela desertificação e fuga dos mais novos.

Recordo Portalegre com outras lembranças, bem diferentes do que hoje acontece.

Porquê este desânimo e abandono? Onde está a alma alentejana, empreendedora, dinamizadora, capaz de derrubar todos os obstáculos e construir um mundo melhor?

Que as gerações futuras criem raízes fortes na terra onde nasceram, possam dar-lhe o seu trabalho, valorizá-la com a sua capacidade produtiva, desenvolvê-la culturalmente, sabendo repartir, com honestidade, todos os apoios vindos da CEE, para que o progresso e o bem estar dos alentejanos seja uma realidade palpável.

Viver na lamuria, sem arregaçar as mangas, não nos leva a lado nenhum.

Unir ideias, conjugar esforços, isso sim, torna uma sociedade mais rica.

O Alentejo é tão lindo, não pode viver chorando!