Publicidade   
   Publicidade   

Opinião de Risoleta C Pinto PedroO meu avô foi sempre um cidadão interventivo, mesmo quando tal lhe era vedado. O que lhe era lícito, fazia-o às claras, como as tarefas do seu dia-a-dia de pequeno proprietário entre a padaria, as casas e as terras, mas ainda estudava, organizava excursões, presidia a reuniões filosóficas, pintava os números nas portas da aldeia, e por aí fora. O que não era permitido, tinha de ser feito clandestinamente, nomeadamente algumas leituras, a audição de certas ondas de rádio, determinadas conversas, e… colar cartazes, como os da campanha de Norton de Matos. Que, como se sabe, acabou por desistir, por falta de garantia de que o acto eleitoral viesse a decorrer em liberdade e sem fraudes. Contudo, a campanha perdurou durante algum tempo, com comícios e manifestações. Os cartazes, pelos vistos, chegaram ao Alentejo. Não sei quem os teria conduzido até ao meu avô, a verdade é que ele andou a afixá-los, na discreta noite.

   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 

Havia outra pessoa lá em casa, que também tinha uma actividade clandestina a coberto dessa mesma discrição da noite. Era a minha avó, e a actividade que o governo familiar representado pelo meu avô lhe vedava, era rezar. Assim, era uma tortura sofrer com a preocupação de o marido ser preso e não poder fazer nada, muito menos pedir ajuda ao alto. Por isso, fechava-se no quarto com a filha mais velha, a minha mãe, nessa altura com vinte anos, e rezavam as duas. Aos mais novos, a minha tia com quinze e o meu tio com dez, exortava-os a que rezassem também, alertando-os para a ameaça latente de o pai poder ser preso, levado dentro de um navio e nunca mais o verem.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Acrescentava, perante os pedidos de esclarecimento dos mais pequenos, que rezar era falar com Deus. O meu tio perguntava à minha tia se sabia falar com Deus e ela não sabia. Dizia-lhe ele então: “Nem sequer o conhecemos! Elas que rezem!” Assim resolviam o assunto. Por isso, não foi graças à minha tia nem ao meu tio que o meu avô não foi levado num navio, mas também não sei se foi graças à minha avó. Mais tarde, todos os irmãos já casados e cada um com seu rumo, um dia a minha tia, que continuava sem saber rezar, perguntou à minha mãe se sabia, ao que ela lhe respondeu que sim, aprendera com a minha avó durante a campanha do general Norton de Matos. Sem o saberem, Salazar e Norton de Matos tinham estado juntos nesta tarefa e haviam contribuído para a educação religiosa informal da minha mãe. Que havia de vir a esquecer o que aprendera. A minha tia, a mais naturalmente mística, aprenderia por si mesma a rezar, mas mais tarde, afinal, tarde o que tardar, não se pode fugir ao destino. E o meu tio, por nunca lhe ter sido apresentado Deus, continuaria sem falar com ele. Pelo menos que se saiba, porque a honesta bondade com que conduziu a sua vida deixa algumas interrogações quanto a isso. Tal como a generosidade da minha tia e a alegria da minha mãe permitem desconfiar de alguma conversa secreta. A continuação do sigilo, com excepção para o caso da minha tia, que tendo descoberto a rede social da divindade nunca mais a ignorou nem deixou de falar dela, dever-se-ia, suponho, à possibilidade de o meu avô, com a sua determinação, atravessar o véu para uma austera, ou ainda pior e mais provável, irónica ou até mordaz condenação. A minha tia viria a encontrar Deus em África, na forma feminina de uma Mãe sobrenatural, afinal viria a ser ela, e não o pai, e sem precisar de colar cartazes, a fazer a viagem de navio; a minha mãe continua, ainda hoje, a chamar pela mãe da terra, aquela sem a qual não sabe rezar. Vale-lhe a alegria, de vez em quando reencontrada, a sua forma de oração não clandestina, à luz do sol. Quando isso acontece, irradia como os santos! Mesmo sem halo.

Artigo anteriorBeja recebe o “NATO Tiger Meet 2021” entre 2 e 14 de Maio
Próximo artigoMeteoAlentejo instala estação meteorológica em Arraiolos
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.