O Beijo das Palavras

Paula Freire, opinião
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Parece-me incrível como fenómenos aparentemente insignificantes possam, por vezes, despertar-nos a atenção e desencadear enorme espanto como se, inevitavelmente, fossem quase impossíveis de acontecer. Foi esse o sentimento que me despertou recente episódio, que me foi dado assistir numa sala de recobro de vacinação contra a covid-19.

Estranho local, aliás, para tão singular visão. Uma menina, bem jovem por sinal, sentada numa cadeira ao lado da mãe, com os olhos postos num livro, apoiado nos joelhos, a ler com uma atenção tão inesperada como o insólito do cenário. Confesso que, sem decoro, olhei demoradamente para confirmar a certeza do momento. A seguir, e sem querer, dei por mim a observar calmamente a restante plateia ao redor. Silenciosa.

Exceção feita a duas senhoras que se agitavam em sussurros e gestos contidos, por conta de desnorteado abelhão a esvoaçar perdido no calor da sala, tudo o resto me pareceram rostos divididos entre o aborrecimento da espera obrigatória e a curiosidade cansada das últimas novidades a desfilar-lhes nos ecrãs dos telemóveis. Ângulos de 60 graus refugiados nas pequenas janelas (in)discretas à sua frente onde, pelo deslizar acelerado dos dedos, cada antecipado momento de leitura teria, na melhor das hipóteses, a duração efémera de 30 voláteis segundos.

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Aquela pequena jovem, que julgo absurdo chamar de adulta na sua postura de leitora tão compenetrada, trouxe-me à memória a minha paixão por livros desde que me reconheço como pessoa. O modo tão característico como gostava de apreciar a delicadeza de um livro com todos os meus sentidos: desde a textura suave ou mais agreste da capa de cartão, passando pelo cheiro inspirador das memórias a prometerem-se antigas em cada folha de papel, até à degustação de cada letra como quem devorava repastas palavras, numa só tarde de lazer, sempre ávida de mais. O olhar preso à fértil imaginação, a dar vida às personagens que tão bem conseguia escutar nas falas dos narradores, em cada parágrafo.

Recordo as sempre ansiadas visitas da carrinha das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian que surgia, pela tarde, na vila, carregadinha de sonhos e aventuras em papel. E nem um funcionário dos serviços, de cenho franzido e voz azeda que, um dia, por lá fez também paragem, me levou a desistir daquela pequena sala de viagens à volta do mundo. Hoje desconfio que o dito senhor, nos seus tempos livres, tenha tirado muito pouco proveito do tesouro que consigo transportava. Caso contrário teria sido, com toda a certeza, um adulto bem mais feliz e simpático. Lá diz o ditado que “dá Deus nozes a quem não tem dentes”…

Um programa que se deu por encerrado em 2002. Mas podemos dizer que, de alguma forma, os livros nunca morrem. E, felizmente, as iniciativas neste âmbito, têm vindo sempre a surgir um pouco por todo o Portugal, pelas mãos criativas de alguém que não teme e ousa dar voz à palavra.

O Beijo das PalavrasFoi com muito agrado que vi surgir mais tarde, por exemplo, a inauguração das chamadas Cabines de Leitura. Interessante projeto iniciado em Barcelinhos, em 2013, pela Fundação Altice Portugal em parceria com entidades autárquicas, fundações, editoras e particulares, movidos pelo objetivo comum de difundir o gosto pela leitura num país cada vez mais digital, criar vínculos de proximidade entre as comunidades e promover comportamentos de cidadania, sempre tão necessários. Pelos mais variados pontos do país, a transformação de antigas cabinas telefónicas, sem uso prático, em minibibliotecas, sob o lema “levar, doar, ler e devolver”.

Talvez seja eu uma incurável sonhadora de ilusões. Mas creio que ainda é importante, ou talvez mesmo urgente, permitirmos às nossas crianças e jovens, permitirmo-nos a nós próprios, continuar a descobrir o mundo palavra a palavra. Com aquela sonoridade que nos toca bem fundo, quando voamos em pensamento nas imagens e emoções que lhes conferem vida. Trazer a realidade dos outros para dentro de nós e partilhá-la, numa sinfonia em sintonia, com eles.

Ler uma letra, os seus contornos, perceber a magia do movimento das palavras, ensina-nos a imaginá-las por dentro com todas as suas possibilidades de voo. E a vivermos com ele. E a sermos autónomos e livres em espírito, como tão bem nos lembra Mia Couto, na sua profunda e emotiva obra infantil, O Beijo da Palavrinha.

Conseguirão um dia as nossas crianças e os nossos jovens, desencontrados da palavra, reconhecerem-se no outro? Porque, afinal, é disto que nos fala a empatia, o espelho interior que legitima o toque dos demais como tendo o mesmo grau de importância que o nosso. É que hoje, vamos constatando de braços cruzados, que as palavras se vão vestindo cada vez mais com abreviaturas, numa sociedade que deveria refletir a paz de ser criança e não representar uma cópia desse outro mundo de homens e mulheres, onde tudo é desejado para ontem e o futuro morre muito antes de chegar à meta, tamanha é a pressa de acontecer.

Por isso, uma dúvida continua em mim presente. Quantas ações de sensibilização, de promoção da leitura, serão necessárias para competir e ultrapassar este estado tóxico de sedução digital que acorrenta às redes sociais, tanto menores como maiores? Estes tempos de aplauso das emoções descartáveis, de seguidores do pseudossaber, de indoutos gurus a caminhar passo a passo com o tamanho gigante de tudo o que desconhecem e a fazer da ignorância uma oportunidade de fama?

Seguimos para um devir de sabedores ou de sabichões? Terá o conhecimento, a cultura, a construção da nossa identidade como seres pensantes, começado a dar os primeiros passos em direção às gavetas das velhas memórias, como vai acontecendo aos livros de papel da nossa infância? Presumo que na antecipação de cada futuro caberá sempre uma justa interrogação. E suponho que nos caiba a todos decidir a resposta. Com sabedoria.

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Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside actualmente em Vila Nova de Gaia. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada. Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias. O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora de imagens de capa de obras poéticas lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021. Nos últimos anos, descobriu-se também no seu ‘amor’ pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.