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Opinião de Graça AmiguinhoFicamos de coração partido, quando notícias tão tristes chegam aos nossos ouvidos.

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Com o evoluir da ciência e das tecnologias, há uma grande tendência para se pensar que tudo pode ser controlado à milésima e que nada que seja considerado fora dos parâmetros da normalidade, passa despercebido.

Todo o humano é falível e sujeito ao erro de avaliação, ou por descuido, ou por confiança excessiva.

Perante tal ocorrência, o meu pensamento recuou quase 50 anos e revejo a minha primeira gravidez, como se um filme passasse frente aos meus olhos.

No primeiro ato sexual que tive, na noite do meu casamento, deve ter acontecido, de imediato, o milagre da vida.

Feitos os primeiros testes de gravidez e confirmada a situação, fui logo observada por um grande ginecologista do Hospital de Santo António, no Porto, o falecido Dr. Albino Aroso. Nada de anormal havia nas análises que fazia e, como tal, o médico entendeu que bastariam mais duas consultas, aos 5 e 7 meses.

Como todos sabemos, nesse tempo, em 1969/70, ainda estávamos distantes de podermos fazer ecografias. Pelo menos, em Portugal, tal serviço não existia.

O médico media o perímetro do ventre da mulher grávida, fazia alguma apalpação no exterior, e por aí se ficava.

Recordo-me, perfeitamente, que na última consulta, ao sétimo mês de gravidez, o médico ficou admirado com o volume do meu ventre e, apalpando a cabeça do bebé, achava que seria um nascituro muito grande, ou, pelas medidas, poderia dar-se o caso de serem gémeos.

Entretanto, a quantidade de líquidos acumulados era de tal ordem que, aos 8 meses de gestação, tive os sinais de parto.

Recordo a admiração do médico, sentado ao lado da cama onde eu aguardava a hora do meu filho nascer, ao medir os 26cm do meu ventre, medida tão diminuta, do feto que ficara, após a saída das «águas».

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo, a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho

Tive um parto normal, porém, o meu filho era uma amostra de gente, apenas com 1.800 g, sendo o maior peso, o da cabeça, que sempre foi grande em relação ao corpo.

Atribuíam a configuração da cabeça ao facto de ser prematuro, alegando que, com o tempo, normalizaria.

Lembro-me que o meu filho não tinha força para mamar e o leite que eu tinha, dava-o a um bebé enorme que nascera na mesma ocasião e cuja mãe não tinha leite para o saciar.

Voltei a casa com uma criança nos braços, que nem sabia como lhe dar banho. Foi uma enfermeira, uma vez, ensinar-me.

Mas nada era impedimento para que amássemos o nosso filho com todas as nossas forças e tudo fizéssemos para aliviar os seus problemas. Procurámos outro grande médico, o pediatra, já falecido, Dr. Virgílio Moreira, que foi sempre um conselheiro delicado, observador e muito ponderado nas suas decisões.

Entretanto, nas primeiras férias de verão que voltámos a Santa Eulália, tinha o menino 5 meses, aconselharam-nos a consultar o pediatra de Arronches, muito conhecido na nossa região.

Foi um homem cruel, insensível pela forma como pegou no nosso menino, como se estivesse a preparar a morte de um coelho e de quem ouvimos, pela primeira vez, a palavra «nanismo».

Conhecíamos muita gente saudável e muita com problemas, mas «anõezinhos», só conhecíamos os da história da Branca de Neve que imaginávamos não serem reais.

Ouvir essa palavra não foi fácil, mas em nada alterou o nosso sentir, pelo contrário, mais o fortaleceu, pois sabíamos que teríamos que enfrentar muitas batalhas e ensinar o nosso filho a saber combater para delicadamente se defender, quando fosse preciso, perante uma sociedade que nessa época, não estava sensibilizada para respeitar as pessoas com deficiência, como hoje, felizmente, acontece, cada vez com mais eficácia, porque vivemos num Estado Democrático.

Há, porém, um pensamento que surge na minha mente, muitas vezes: se fosse hoje, o que quereriam fazer ao meu filho, no meu ventre, só porque teriam detetado que não era um ser humano, dentro dos parâmetros estandardizados?

Por muita razão que houvesse, a decisão seria sempre nossa, pois a responsabilidade da sua educação seria assumida por nós e não pela lei.

Diz o povo na sua grande ciência: Deus não dá tudo, nem tira tudo!

O meu filho é um ser humano extraordinário, um grande trabalhador, um lutador incansável, um filho amigo, companheiro dedicado, um artista gráfico, uma grande alma, a quem a incapacidade não roubou a bondade nem a alegria de viver.

Sou solidária com os pais que sofrem as doenças dos seus filhos, compreendo que a vida nem sempre é justa, mas há que seguir em frente na certeza de que, quando a cruz é demasiado pesada e já não temos capacidade para a carregar, Deus se encarrega de nos aliviar.