Opinião - Risoleta Pinto Pedro
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«Deixar derreter o tempo parece-me uma ocupação tipicamente espanhola, e em nenhuma parte o tempo derreteu de uma forma tão bela como no relógio de Dali, um relógio em decomposição, qual caracol transformando-se em grumo.»

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Suponho que o leitor não terá dificuldade em lembrar a pintura: “A persistência da Memória”, a que alude o autor desta passagem, o escritor holandês apaixonado por Espanha, Cees Nooteboom. De qualquer modo, a reprodução aqui segue a acompanhar a crónica: o relógio derretido como queijo em máquina de fazer tostas. Ou como, nas férias de Agosto no Alentejo, se encontrava o meu corpo, o meu cérebro. Andava tudo a velocidade negativa, com o calor, com a dança do ar quente ao longe. Sentia os meus miolos a derreter, tal o relógio de Dali. Como o relógio de sala dos meus avós que o meu pai trouxe para nossa casa e que esteve tantos anos sem corda, que comecei a ter pena dele e rodei a chave que anulou o derretimento do tempo e pôs a balançar o pêndulo e a girar os ponteiros.

Ainda era eu muito pequena e o meu pai já desenhava relógios pedindo-me para pôr os ponteiros consoante as horas que ele me ia dizendo. Adorava este exercício e aprendi de imediato a ler as horas. Achei tão fácil a aprendizagem do tempo, o seu aprisionamento e apreensão …

Hoje já não faz muito sentido as crianças aprenderem a ver as horas num relógio destes, mas se não o fizerem, como poderão admirar o relógio de Dali? Se não conhecem a dança circular do tempo, como podem compreender a metáfora do pintor? Será por essa razão que os dias ficaram enlouquecidos e se comportam como tendo menos horas? Qualquer pessoa minimamente atenta pode testemunhá-lo.

Dali - A persistência da memóriaAlgumas das mais belas recordações da minha infância têm a ver com relógios: estes relógios desenhados para eu aprender as horas, o meu primeiro relógio de pulso, o minúsculo e elegante relógio de pulso da minha mãe, quase um adereço, e por contraste, o enorme relógio no braço do meu pai, os relógios de mesa nas casas dos avós, o relógio da torre da Igreja ou da Câmara Municipal, o relógio de parede que havia no gabinete do meu pai e que voltei a encontrar recentemente num outro edifício da mesma organização… Ainda hoje não prescindo de ter relógios clássicos em casa, com tudo a que têm direito: a circularidade, os ponteiros, o tic-tac; um por divisão. Mas a evolução foi tão grande, que um relógio eléctrico digital daqueles com rádio e despertador que pertenceu a meu avô, um dos primeiros, porque nada do que fosse eléctrico ou electrónico lhe escapava, ocupa hoje, por razões de afecto, a minha moderna secretária de uma das casas, conferindo ao ambiente um tom quase de museu, embora já não possamos referir-nos a ele em termos de tic-tac, razão pela qual é para mim um mistério que o meu neto que ainda não tem dois anos, quando vê um relógio, seja que relógio for, lhe chame tic-tac. Em que realidade escutará ele a regularidade de metrónomo do inexistente pêndulo?

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Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.