O Serviço da Mala-Posta
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Opinião de Risoleta C Pinto PedroNos anos sessenta, o admirável António Quadros escrevia uma série de crónicas jornalísticas sobre uma viagem que fizera à Rússia. Em 69 haviam de tomar a forma de livro. Espírito equitativo e luminoso, nunca deixou, nessas páginas, de referir quer o lado negro pós-revolucionário, quer as reais melhorias alcançadas. Uma delas, o avanço mais do que expressivo no sector educativo. Um dos aspectos que destaca, com admiração, são:

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«[…] os cursos por correspondência permitem dar diplomas, em três anos, a um milhão e quatrocentos mil jovens daquelas classes […]»

(António Quadros, Uma Viagem à Rússia)

Referia-se às classes impossibilitadas por questões económicas ou pela distância, de frequentarem a Universidade, principalmente os habitantes das zonas rurais.

De notar que o ensino à distância de que se fala aqui, não era o mesmo de agora. Era preciso dactilografar, policopiar, embalar, pôr nos correios, e percorrer longas distâncias para distribuir. Para cá e para lá, porque era necessário um retorno para controlar a progressão dos alunos. Hoje há o email, o WhatsApp, as inumeráveis redes, os telemóveis e IPad’s, a digitalização e por aí fora. Tudo pode ser feito quase sem suporte real, para além do suporte electrónico e, como agora se diz, à distância de um clic.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Com a pandemia foi necessário recorrer ao ensino à distância e a escola entrou pela casa das pessoas com a maior facilidade. Claro que houve e continua a haver aqueles que não dispondo, quer de espaço adequado, quer do sossego necessário, quer da tecnologia indispensável, se vêem em situação de grande desigualdade, mas se formos ver ela não é totalmente eliminada pela escola presencial, porque continua a não haver o quarto, a secretária ou ao menos uma mesa disponível num canto sossegado para fazer os trabalhos de casa. Estamos ainda muito longe da justiça e se já não digo da igualdade, pelo menos da justa distribuição de oportunidades.

Se tivéssemos de voltar a recorrer aos métodos arcaicos do correio físico, da caixa postal, não sei como reagiríamos. E no entanto, foi esse método por correspondência, que valeu a muitas pessoas deste país durante o Estado Novo e até depois da revolução, antes do advento e proliferação da Internet.

O meu avô, que pelas circunstâncias de criança criada numa aldeia apenas teve acesso à frequência da escola até à quarta classe, mas espírito curioso e sôfrego, não perdeu tempo, logo que lhe foi possível, em desatar a fazer cursos por correspondência uns atrás dos outros. Quase posso sentir o seu frenesim e a felicidade na espera e no recebimento dos embrulhos trazidos pelo carteiro ou levantados no posto dos correios que deveria ser, suponho, alguma loja desempenhando polifacetadas funções. Como creio, mas sem certeza, que hoje ainda será a prática em S. Vicente e Ventosa, aldeia vizinha de Elvas, onde nasci e o meu avô foi aprendendo, já adulto, ao ritmo do seu desejo, relojoaria, filosofia, física, electricidade, hipnose… e francês, e inglês, em fitas gravadas que ouvia no seu leitor-gravador, hoje objecto histórico de museu. Tal como os jovens agricultores russos, este jovem (e depois já não tanto), agricultor alentejano, ele e eles guardando os extremos da Europa da ignorância e do isolamento, através do ensino à distância. Expressão que não se aplica nem um bocadinho, ao sentido que lhe damos hoje.

Aqui há uns anos fui responsável pela supervisão dos manuais de literatura do ensino secundário para o ensino à distância da Marinha. Já havia email, caso contrário aconteceria o que a minha imaginação sempre construía no éter: um navio-expresso ou um helicóptero transportando junto dos navios ou dos submarinos, as unidades de estudo. Como imagino a mala-posta russa atravessando a estepe com os cadernos de aprendizagem para os jovens camponeses, ou os nossos correios viajando de camioneta dentro de um saco devidamente identificado com o símbolo dos correios até à aldeia mais remota. Ou pela planície mais deserta até uma aldeia junto da fronteira e com alguns problemas de dupla identidade. O meu avô não teve nenhum diploma de estudos superiores, mas recordo-me de ver em sua casa os diplomas mais modestos dos cursos que fazia e que hoje me enchem de orgulho como em relação a um filho. Assim me sinto, mãe orgulhosa de meu avô que, como já contei aqui, não se contentava em guardar para si o saber, partilhando-o em pequenas tertúlias que em sua casa se reuniam para aprender, desafiando a desconfiança do regime e chegando a sofrer a humilhação e a inquietação da revista e da devassa da casa. Quando até aprender, fora dos limitados cânones, podia constituir uma actividade perigosa.

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Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.