O filósofo que amava uma laranjeira

Opinião - Risoleta Pinto Pedro
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Num livro que estou a reler, com autoria do nosso já várias vezes mencionado António Telmo, filósofo nascido em Almeida e radicado no Alentejo até ao fim da sua existência terrena, existem uns diálogos imaginários entre Nathan e Thomé, por ele criados a partir de uma sua outra personagem: Thomé Natanael; uma espécie de personagens desdobrando-se noutras, sendo que se formos até ao princípio, encontramos o autor. Essa é, aliás, uma das características da sua escrita, onde ficção, biografia, poesia, ciência, simbolismo, história e filosofia se interpenetram criando um labirinto conceptual onde, até quem o conheceu, por vezes não consegue distinguir a realidade da ficção.

Num dos diálogos, Nathan e Thomé falam sobre árvores, a propósito das avelaneiras e dos pinheiros das cantigas galaico-portuguesas, mas estando no Alentejo (Thomé? Nathan? Thomé Natanael? Telmo?…) impossível seria não mencionar as laranjeiras. Não sendo exclusivas do Alentejo, pois podemos encontrá-las em outros lados, como aqui em Lisboa, onde perfumam a minha frequente passagem por um Largo que muito pouco deve à beleza, impressão que o perfume das generosas laranjeiras consegue dissipar, muitas vezes coexistindo a flor com a beleza colorida das laranjas, não deixam de ser, inequivocamente, árvores do sul. Encontro-as no Alentejo e encontrei-as na Andaluzia, por todo o lado; parece que já foram em tempos o ex-libris de Setúbal, com seus extensos e abundantes pomares. Mas voltando ao livro, levanta Telmo uma questão relacionada com as folhas perenes, como as do pinheiro, consideradas por um grande investigador em esoterismo e iniciação, René Guénon, árvores sagradas. É precisamente a isso que Thomé, pela pena de Telmo, alude:

«Pela janela, estou vendo uma laranjeira, a nossa laranjeira, a mais bela laranjeira da nossa rua. Estamos no mês de Maio, que este ano veio fresco; não tardam os calores. E então, o sol abrasador do Alentejo, em vez de criar, seca. Todavia, por que milagre da vida ou, mais cingidamente, por que energia ou enteléquia as árvores de folha perene se conservam verdes e viçosas, indiferentes ao calor?»

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LaranjeiraComo as do Largo a que há pouco aludi, indiferentes ao feio. Como não choram, aquelas árvores rodeadas de desarmonia e descuido arquitectónico?

A rua onde viveu Telmo, que conheço muito bem, onde continua a viver parte da sua família, é real e é bela. A laranjeira existe e é possível colher laranjas dela, pela varanda. Já o fiz, já as provei. Aqui, as laranjeiras enfileiradas são alimentadas pela beleza da rua e pela memória do belo pensamento do filósofo que ali viveu e as amou, mas no Largo de Sapadores, Senhor, quem velará pelas laranjeiras, se não Tu?

 

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.