Clyde Tombaugh
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O Planeta X

Já nos finais do século XIX, aparentes irregularidades na órbita de Neptuno fizeram supor a existência de um outro planeta ainda mais distante. Na década de 1920, o Observatório Lowell, no Arizona, tinha como uma das suas missões descobrir este planeta, a que então se dava o nome de planeta X.

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Por essa altura, numa quinta do Kansas vivia um jovem na casa dos seus vinte anos, Clyde Tombaugh. Os pais não tinham recursos para lhe financiarem os estudos universitários, mas ele alimentava o seu interesse por astronomia. Com telescópios que construíra com peças de máquinas da quinta, fazia observações do céu.

Clyde observou os planetas Marte e Júpiter e fez desenhos muito detalhados, que depois enviou ao Observatório Lowell. Esperava que os astrónomos profissionais lhe pudessem dar orientações sobre como prosseguir o seu trabalho, mas acabou por receber uma proposta de emprego.

Na verdade, o director do Observatório Lowell, Vesto Slipher, procurava um astrónomo amador com dedicação e perseverança para um trabalho rotineiro e algo aborrecido. Consistia em fotografar partes do céu, repetidamente e noite após noite, até perfazer cerca de 70% da abóbada celeste, analisando depois as fotografias, com centenas ou mesmo milhares de estrelas fixas. Se descobrisse um ponto luminoso que saísse do sítio, esse poderia muito bem ser o tal planeta X.

A descoberta de Plutão

Ao fim de dez meses, em Fevereiro de 1930, Clyde Tombaugh encontrou o planeta X em chapas fotográficas obtidas no mês anterior.

Era muito mais pequeno do que o esperado para se conseguir explicar as tais irregularidades na órbita de Neptuno, mas ainda assim, a 13 de Março, o Observatório Lowell anunciou a descoberta do nono planeta do Sistema Solar.

Foi então lançado um anúncio internacional para que se apresentassem nomes a serem dados ao novo planeta. Acabou por ser escolhida a proposta de uma menina inglesa de 11 anos que propôs o nome Plutão, deus grego do submundo.

Além de este nome dar continuidade à linha de deuses clássicos dos outros planetas do Sistema Solar, as duas primeiras letras são as iniciais do fundador do Observatório Lowell, Percival Lowell, que estabelecera como um dos objetivos do seu observatório a procura do planeta X.

Plutão, visto pela sonda New Horizons, da NASA, em 2015. Créditos NASA
Plutão, visto pela sonda New Horizons, da NASA, em 2015. Créditos NASA

A descoberta de Plutão permitiu a Clyde Tombaugh receber uma bolsa de estudos e prosseguir enfim a sua formação na Universidade do Kansas. O seu trabalho no Observatório Lowell foi o início de uma longa carreira em astronomia, com particular foco no estudo do Sistema Solar.

Tombaugh continuou a trabalhar no observatório durante as férias universitárias e depois por um total de 13 anos. Durante esse tempo não descobriu mais nenhum planeta, mas sim dois cometas, estrelas variáveis, enxames de estrelas, grupos de galáxias e quase quatro mil asteroides, catalogando mais de 30 000 objectos celestes.

O projecto Satélites Naturais da Terra

Na década de 1950, Clyde Tombaugh dirigiu um projecto de detecção de satélites naturais da Terra. Nesta época, em que se planeava a exploração espacial, iniciada em 1957 pelo lançamento do primeiro satélite artificial pelos soviéticos, o Sputnik 1, era crítico saber se, para além da Lua, haveria outros corpos — pequenas rochas, fragmentos da formação do Sistema Solar, invisíveis a olho nu — que orbitassem a Terra e que pudessem constituir uma ameaça às missões espaciais. O resultado do projecto foi nulo, ou seja, a equipa de Tombaugh mostrou que, para além da Lua, não existem outros satélites naturais da Terra.

Plutão e a Cintura de Kuiper

Clyde Tombaugh faleceu em 1997, com 91 anos. Durante a sua vida foi aumentando o conhecimento sobre o Sistema Solar. As missões Voyager aos planetas gigantes, no início da década de 80, mostraram que não existe nada de irregular na órbita de Neptuno e que a descoberta de Plutão teria ocorrido talvez mais tarde se não fosse a perseverança de Clyde Tombaugh e uma má interpretação das incertezas nas observações de Neptuno.

Ainda na década de 1940 foi lançada a hipótese de que existiria, nos limites do Sistema Solar, para lá de Neptuno, uma cintura de pequenos corpos gelados de onde teriam origem alguns dos cometas. Só em 1992 foi descoberto nesta região um corpo com um tamanho da mesma ordem de grandeza de Plutão, sendo o segundo corpo descoberto, em mais de sessenta anos, na designada Cintura de Kuiper. Outros corpos de seguiram, incluindo Eris, em 2003, com um tamanho muito próximo de Plutão.

Hoje sabe-se que Plutão é um de muitos corpos desta região remota do Sistema Solar e cuja detecção tem sido possível graças a telescópios cada vez mais sensíveis. Em Agosto de 2006 a União Astronómica Internacional (IAU) estabeleceu a definição de planeta e reclassificou Plutão como planeta-anão, em conjunto com esses outros objectos e que reúnem as mesmas características.

A sonda New Horizons

Em julho de 2015, a sonda New Horizons, da NASA, passou por Plutão e enviou imagens de elevado detalhe da sua superfície. Foram propostos vários nomes para atribuir a características na superfície deste mundo distante, onde as temperaturas podem atingir os -240º C. A Região de Tombaugh, uma extensa calote glaciar, foi já aprovada pela IAU, em memória do seu descobridor.

A sonda New Horizons atravessa agora a Cintura de Kuiper e leva consigo parte das cinzas do corpo de Clyde Tombaugh, que em vida manifestou o desejo de que as suas cinzas fossem enviadas para o espaço. São os restos mortais de um ser humano que neste momento se encontram mais longe do nosso planeta Terra.

Estrelas que brilham no tempo” é uma rubrica com que o Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço se associa à celebração dos 100 anos da União Astronómica Internacional (IAU), recordando figuras importantes na história da astronomia dos últimos 100 anos.

Sérgio Pereira, Grupo de Comunicação de Ciência do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço.
Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva