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O lugar certo para nascer

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João P Canhoto

Agostinho da Silva, em Caderno de Lembranças fala sobre o seu início de vida e afirma que foi por engano que nasceu no Porto, pois o seu alvo era Barca d’Alva, tendo havido uma espécie de erro de cálculo. Efectivamente, ainda no ano de nascimento foi viver com a família, até aos seis anos, para Barca d’Alva. Este facto faz-me lembrar o meu caso, porque os meus pais já viviam em Santa Eulália. Passei lá, portanto, a gravidez da minha mãe, que foi ter o parto em S. Vicente, onde moravam os meus avós, tendo praticamente aí ficado apenas um ou pouquíssimos dias, regressando de imediato ao local da concepção. Imagino-me, tal como Agostinho, ainda do espaço olhando os lugares da Terra onde quereria nascer. Imagino-me aproximando-me e ficando muito confusa, porque chegava a uma espécie de Paraíso cheio de terras que me agradavam intensamente: Elvas, S. Vicente, Santa Eulália… mas também Barbacena, Campo Maior, Vila Fernando, Caia, Alcáçova, São Brás, São Lourenço, Terrugem, Vila Boim, Portalegre, Arronches, Vila Viçosa, Estremoz, tantas outras… até uma cidade chamada Badajoz me terá atraído muito, não fosse pertencer a Espanha. O obstáculo não tinha a ver com algum tipo de hostilidade para com os espanhóis, pelo contrário, mas porque eu deveria nascer portuguesa. Para além disso, Elvas, São Vicente, Santa Eulália estavam cheias de espanhóis, gente ainda refugiada da guerra civil, por isso nascer numa destas terras raianas era como ter uma pequenina Espanha em casa. Quando estava aborrecida, uma das minhas avós, Joaquina Rosa, praguejava em espanhol, por essa razão ainda hoje ouvir praguejar em castelhano soa-me como uma espécie de bênção ou toada de embalar…

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Agostinho sabia o que queria, o que não evitou que se tivesse enganado. Eu não sabia lá muito bem o que pretendia, tinha apenas uma ideia vaga, o que possibilitou que o engano não fosse grande ou que nem sequer tivesse havido engano. Com vários alvos é muito maior a possibilidade de se acertar. Mais tarde, o meu avô José Francisco Pinto viria a ensinar-me o tiro ao alvo com pressão de ar, num quintal a dar para a planície a perder de vista, mas eu já tinha umas “luzes”, que aprendera com a escolha do nascer. Qualquer uma destas terras me teria servido confortavelmente de berço. Mais tarde, muitos anos depois, eu teria de escrever um livro sobre uma mulher daqui (falarei dela mais tarde), precisava de respirar o mesmo ar, mas mais quilómetro, menos quilómetro, não era muito significativo. É claro que se tivesse ido nascer ao Porto ou a Barca d’Alva teria sido um enorme erro, mas embora eu goste do Porto, felizmente não aconteceu. Acontece que, como Agostinho, acabei por ter duas terras na minha primeira infância, e aquela em que nasci de certo modo ficou para trás, embora apenas temporariamente, e não por inferioridade, mas por razões misteriosas cuja explicação se encontra do outro lado do véu. A verdade é que este eixo: Elvas, Santa Eulália, S. Vicente e Ventosa, ocupa um lugar cada vez maior no meu coração. E tem vindo a ampliar-se, por razões que só o afecto explica: Casa Branca, Évora, Igrejinha, Vila Fernando, Vila Viçosa, Mora, Beja, Arraiolos, Avis, Serra d’Ossa, Estremoz…

Tudo isto, para manifestar a minha alegria por estar a escrever a primeira crónica para uma publicação destinada a Elvas e arredores. Arredores nos quais cabem planície, sobreiros e azinheiras, campos de cereais, aldeias, vilas e cidades, hortas, montes, mosteiros, saudade, estradas e futuro a perder de vista…

Antes de me decidir a aterrar, tinha visto cá em baixo uma linda jovem que eu queria para minha mãe e um homem doce que teria de ser meu pai. Acontece que eles andavam de um lado para o outro. É muito difícil acertar em alvos em movimento. Mas a planície ajudou, não havia muito por onde se esconderem, alvos fáceis, portanto. Por isso lhes deixei a escolha dos lugares. Pela mesma razão “aqui” regresso, uma forma de os recordar como eram, uma forma de me recordar de mim, uma forma de agradecer à planície, ao céu e às aves, às pessoas e às casas terem estado aqui então, para mim. Aqui estou eu hoje, para vós.

Que não se espere destas crónicas grande rigor factual. Não é isso que caracteriza o género literário que é a crónica. O único rigor será o do sentimento e o da criação. Que dedico e com que pretendo homenagear a minha ampla terra para lá do Tejo. É um prazer, uma alegria e um privilégio fazer parte desta equipa que constitui o Elvasnews, e fazer parte de vós, leitores, entre os quais também me reconheço. Deixo marcado o encontro convosco neste espaço de Opinião, todas as quintas-feiras, na planície, em casa, no jardim, no largo, na biblioteca, no café ou onde melhor vos convier. Para mim, do Alentejo qualquer lugar é bom.

Até pr’a semana!

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.