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Na paixão de Cristo o manto púrpuro é omnipresente.

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Sinal de realeza, os tecidos tingidos de cor púrpura foram os mais usados por reis e imperadores durante milénios. Uma das razões para essa escolha tecia-se com a raridade e a dificuldade em obter os corantes capazes de tingir de púrpura os tecidos.

Nas civilizações Mediterrânicas, a principal fonte do corante estava incrustada em secreções mucosas da glândula hipobranquial e nas conchas protectoras de duas espécies de molusco gastrópodes do género Murex do Mar Interior: Murex brandaris e Murex trunculus (hoje conhecidos por Haustellum brandaris e Hexaplex trunculus, respectivamente).

Os fenícios eram exímios extractores do corante com o qual tingiam os tecidos púrpuros que comercializavam. Contudo, para tingir um metro quadrado de tecido era necessária uma centena de conchas ou sacrificar cerca de dez mil moluscos para extrair cerca de uma grama de pigmento! Não é de estranhar a rápida rarefacção das populações daqueles moluscos e das conchas acumuladas junto às costas por milhões de marés.

Um dos episódios ilustrativos da raridade do corante é a recusa que terá sido imposta à esposa do imperador romano Aureliano, impedindo-a de comprar tecidos de cor púrpura. Um quilo de tecido tingido com o corante extraído das conchas custaria mais de 20 mil euros aos preços de hoje. Os seus apetites de vestuários púrpuros não eram comportáveis mesmo para a Roma Imperial.

Dada a procura e a raridade daquela fonte, outras foram exploradas e o engenho aguçado foi encontrando corantes substitutos para aproximar a realeza à cor púrpura. Várias foram as aproximações: desde as fórmulas de corantes incluídas no alquímico “Papiro de Estocolmo” (Papyrus Graecus Holmiensis), escrito provavelmente no século III; até um processo envolvendo tingimento com uma cera chinesa designada por “batik” no século sétimo d.C.

Mas só em meados do século XIX foi encontrado uma solução para resolver a púrpura raridade. Um químico inglês, de nome Williams Perkin, enquanto investigava um método para a síntese laboratorial de quinino, um composto orgânico necessário para atenuar o flagelo da malária, descobre acidentalmente, curiosamente durante a Páscoa de 1856, a substância púrpura de anilina, também conhecida por malva ou mauveína (C26H23N4+ X- fórmula química da mauveína A).

No atalho da investigação, Perkin sintetizou o primeiro corante artificial orgânico de sucesso na indústria têxtil, paradigma de uma nova era da indústria química e que haveria de tonalizar o tecido social com que se vestiu massivamente a organização da sociedade que se lhe seguiu. Mesmo que raramente os cidadãos se vistam com cores púrpuras…de paixão, de renovada esperança.

António Piedade

António Piedade é Bioquímico e Comunicador de Ciência. Publicou mais 700 artigos e crónicas de divulgação científica na imprensa portuguesa e 20 artigos em revistas científicas internacionais. É autor de nove livros de divulgação de ciência, entre os quais se destacam “Íris Científica” (Mar da Palavra, 2005 – Plano Nacional de Leitura),”Caminhos de Ciência” com prefácio de Carlos Fiolhais (Imprensa Universidade de Coimbra, 2011) e “Diálogos com Ciência” (Ed. Trinta por um Linha, 2019 – Plano Nacional de Leitura) prefaciado por Carlos Fiolhais. Organiza regularmente ciclos de palestras de divulgação científica, entre os quais, o já muito popular “Ciência às Seis”, no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra. Profere regularmente palestras de divulgação científica em escolas e outras instituições.