Publicidade   
   Publicidade   

Espero que ainda seja vivo, que esteja de saúde e leia esta crónica. Era o primo Lopo. Não o vejo desde os meus dois anos, creio. Poderei tê-lo reencontrado uma vez ou outra ainda na infância, quando ia de férias, mas não me recordo. Eu teria no máximo dois anos, e ele era já um jovem ou adulto, não tenho a certeza. Mas não seria uma criança.

   Publicidade   
   Publicidade   
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Vivia eu em Santa Eulália com os meus pais, na rua capitão Vaz Monteiro. Talvez no número 17, mas não é certo. Tenho uma vaga memória de um rés-do-chão em tijoleira e um quintal atrás. Há fotos. Tendo nascido no Verão, passei o Inverno, quando era o tempo do gatinhar e rastejar, sentada a uma cadeira alta, à mesa, de onde me entretinha a deitar brinquedos ao chão, que pela baixa temperatura me estava vedado. Passei assim directamente do berço para a cadeira e desta para o andar. E o passeio, a rua, o espaço ao pé da porta, o mundo.

Umas casas mais acima, no mesmo passeio, vivia o primo Lopo. Que gostava de me oferecer melancias. Chamava-me, colocava uma melancia no meu bibe, que eu segurava com as duas mãos, e ele ficava a assistir, de cima, ao filme em que eu, descendo a rua, rumo a minha casa, me esforçava por segurar firmemente o tecido que continha a melancia até ao momento em que, já não tendo forças, a melancia rolava pelo passeio (tanto quanto me lembro, a rua era inclinada) até se fragmentar contra alguma árvore ou outro obstáculo. Consta que ele ria a bandeiras despregadas e eu, suponho, ficaria consternadíssima a olhar para a melancia em estado líquido. Mas não tenho nenhuma recordação amarga dos episódios. Suponho que ele me compensaria com uma melancia inteira, levada ao domicílio. Será, talvez, por essa razão, que ainda hoje não consigo compreender que alguém consiga não gostar de melancia. É frequente as pessoas justificarem o seu não gostar com o facto de supostamente a melancia não ter sabor. Para mim é um fruto do Paraíso, manjar de deuses, sabor de felicidade. Nas minhas papilas gustativas, sabor, frescura e textura não faltam, ao contacto com a sua polpa. Aos meus olhos, a deslumbrante cor. Eu que não sou de comer muito, consigo ingerir quantidades inimagináveis de melancia. Sei que devo este amor pelas melancias ao meu primo Lopo. Gostaria de saber dele. Para lhe agradecer esta memória feliz que se prolongou no tempo. E para lhe desejar que seja tão feliz, onde quer que esteja como eu me sinto ao recordar a nossa rua, o meu esforço heróico tentando defender as melancias do destino certo, que seja pelo menos tão feliz, repito, como eu quando estou perante uma melancia, quando a saboreio, quando a evoco. A felicidade é vermelha por dentro e veste-se de verde. Abençoado seja o primo Lopo e quem inventou e criou as melancias, esses anjos redondos em forma vegetal.

Artigo anteriorAutarquia pinta passadeiras em toda a cidade e bairros
Próximo artigoGNR/Évora: Um morto e um ferido grave em colisão frontal no IP2
Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.