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O que é a Psicologia Experimental?

Apesar da sua relativa obscuridade para o grande público, a Psicologia Experimental é uma área de grande vitalidade científica e em fraco desenvolvimento em Portugal. Saiba aqui o que é e o que faz um Psicólogo Experimental.

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A Psicologia Experimental compreende um conjunto de metodologias, técnicas, instrumentos e paradigmas para o estudo empírico de processos psicológicos básicos, constituindo assim o cerne do conhecimento fundamental da Psicologia Científica. É, aliás, a génese desta área que assinala o início histórico da Psicologia enquanto ciência autónoma. Fundada em finais do século XIX, em estreita associação com o trabalho de fisiólogos alemães, a Psicologia Experimental debruçou-se, classicamente, na compreensão de mecanismos de percepção (visão, audição, etc.), memória, atenção, aprendizagem e cognição, tanto em humanos como animais. O intuito seria o de estabelecer as regularidades empíricas e princípios fundamentais que subjazem à interacção entre um organismo vivo e o seu ambiente: como esse é percebido por aquele de tal forma que possa sobre ele agir? Que leis e princípios reguladores explicam como intensidades físicas (luz, som, pressão, etc.), que especificam propriedades relevantes no ambiente, são apreendidas e percebidas por um ser vivo dotado de mecanismos a esses sensíveis (olhos, ouvidos, sensação táctil, etc.)? Estes tópicos, por serem passíveis de serem estudados em contextos controlados/laboratoriais, mantiveram-se até hoje no âmago da Psicologia Experimental. O título de “experimental”, que denuncia um compromisso epistemológico com a metodologia homónima, estabelece assim a sua aproximação às Ciências Naturais. Na altura, a especificação de “experimental” teria como intuito a distinção da Psicologia de tradição e metodologia filosóficas; hoje, distingue-se por ser das poucas áreas da Psicologia, senão mesmo a única, cuja designação especifica não o objecto de estudo e área de actuação (como é o caso, por exemplo, da Psicologia Clínica, da Psicologia do Trabalho, da Psicologia da Educação, etc.), mas sim o método de estudo, privilegiando o controlo experimental e medição rigorosa das variáveis de interesse. Essencialmente por isso, mantem-se mais ou menos como uma área científica fundamental e básica, por oposição a uma área aplicada, o que explica a sua relativa obscuridade para o grande público: será possível que o/a leitor/a tenha já contactado, directa ou indirectamente, com Psicólogos Clínicos, Psicólogos do Trabalho e Organizações ou Psicólogos Educacionais, mas dificilmente se afigura uma situação em que tenha contacto com um Psicólogo Experimental. Ou pelo menos não directamente: a Psicologia Experimental tem desempenhado um importante papel, a título de exemplo, ao informar o desenvolvimento de sistemas em que a interacção humana é relevante, desde a interface dos vulgares telemóveis até aos cockpits de aviões (durante a Segunda Guerra Mundial, vários Psicólogos Experimentais foram envolvidos no desenvolvimento de painéis de instrumentos de aeronaves, para minimizar, através da sua adequação a características perceptivas humanas, o risco de erros e acidentes). Foi também a responsável pelo desenvolvimento de metodologias específicas para o estudo rigoroso de aspectos sensoriais humanos, com contribuições directas para áreas tão distintas como a indústria alimentar, de perfumaria e vinícola, ou mesmo áreas de saúde como a audiologia e a ortóptica. Uma outra faceta, que hoje recebe grande destaque nos esforços de divulgação científica, prende-se com as Neurociências, à qual a Psicologia Experimental fornece um conjunto de modelos teóricos, metodologias de estudo e definições operacionais imprescindíveis para a compreensão e clarificação do funcionamento do cérebro.

De resto, e ainda que o estudo de processos psicológicos básicos continue a ser prevalente na Psicologia Experimental, esta não se restringe a esses, englobando hoje em dia virtualmente qualquer fenómeno psicológico que possa ser estudado experimentalmente (incluindo fenómenos sociais, desenvolvimentais, clínicos e mesmo políticos).

Em Portugal, coube ao ponte-limense Alves dos Santos a fundação do primeiro laboratório de Psicologia Experimental, em Coimbra, em 1912, após uma visita a Leipzig (berço do primeiro laboratório de Psicologia Experimental do mundo), enquadrada nos esforços da Primeira República Portuguesa para a promoção científica e pedagógica do país. Alguns dos instrumentos desse laboratório encontram-se hoje em exposição permanente nos corredores da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra. Apesar do início relativamente precoce, a Psicologia Experimental Portuguesa só veio a experienciar um franco crescimento a partir da década de 60 do século XX, num processo que eventualmente culminou com a criação da Associação Portuguesa de Psicologia Experimental, em 2005. Esta tem organizado anualmente encontros nacionais de cientistas da área para partilha e divulgação dos mais recentes resultados de investigação.

Nuno Alexandre de Sá Teixeira
© 2018 – Ciência na Imprensa Regional / Ciência Viva

Nuno Alexandre de Sá Teixeira

Nuno Alexandre de Sá Teixeira formou-se em Psicologia pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, e doutorou-se em Psicologia Experimental pela mesma instituição. Trabalhou como investigador doutorado no Departamento de Psicologia Experimental Geral da Universidade Johannes-Gutenberg, Mainz, Alemanha, e, posteriormente, no Instituto de Psicologia Cognitiva da Universidade de Coimbra. Neste momento é investigador doutorado no Centro de Biomedicina Espacial da Universidade de Roma ‘Tor Vergata’, Itália. Os seus trabalhos científicos têm-se centrado no estudo da forma como variáveis físicas (em particular, a gravidade) são instanciadas pelo cérebro, como “modelos internos”, para suportar funções perceptivas e motoras na interacção com o mundo. Assim, os seus interesses partem da charneira entre áreas temáticas como a Psicologia da Percepção, Psicofísica e Neurociências.

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