Tratado de Tordesilhas
   Publicidade   
   Publicidade   
   Publicidade   

Opinião de Risoleta C Pinto PedroFala-se muito hoje em ataques informáticos, sendo alguns considerados crime e outros actos de heroísmo. Nunca pelos mesmos, por vezes pelas mesmas razões. O mundo divide-se na opinião. Não se trata de a humanidade andar confusa, não… é apenas uma técnica divinal para aprendermos a distinguir o trio do joio ou para os unirmos e outras coisas que não se aprendem na escola. Pelo meio do caos, esse clarividente mestre.

   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 

De qualquer modo, os roubos através da técnica não são de agora. Vejamos o que afirma Agostinho da Silva, esse enfant terrible da filosofia portuguesa, no recentemente publicado pela Zéfiro, Vida Conversável, diálogo longo e delicioso com seu amigo polaco Henryk Siewierski:

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

«[…] a coisa fundamental de que aquele território [refere-se ao Brasil] na realidade devia ser uma colónia espanhola, uma possessão de Espanha, porque pelo Tratado de Tordesilhas o papa tinha dividido o mundo em duas partes, uma para Portugal e outra para os espanhóis, e a grande extensão do Brasil estava incluída quase toda na parte espanhola e não na portuguesa. De maneira que, na realidade, o Brasil tinha sido roubado  aos espanhóis. E roubado de que maneira. Apoiando-se os portugueses na melhor ciência náutica e astronómica do seu tempo. Isto é, em resumo, podemos dizer: os portugueses roubaram o Brasil aos espanhóis por meio da matemática, sendo talvez o roubo mais técnico, mais científico que jamais se fez no mundo […]».

Tratado de Tordesilhas

Pode ser chocante para Portugal, nos dias de hoje, ler isto. Tanto mais que há o hábito de dizer que de Espanha nem bom vento, nem bom casamento; estamos mais habituados ao papel da vítima, sendo que os factos, ao longo dos anos, foram provando o contrário, e a amizade, bem como os negócios de um e outro lado, tal como casamentos que se foram desenvolvendo ao longo da raia durante séculos, desmentem o ditado. Como poderia vir-nos algum mal do lado do mundo onde nos nasce o sol? Por outro lado, quem denuncia este roubo é um dos Portugueses que mais contribuíram, fora e dentro de fronteiras, para o prestígio de Portugal. Um homem sem papas na língua nem medo de ser censurado. Um dos que experimentaram as cadeias do regime.

Esta longa conversa que se prolongou pelo Outono de 85 entre os dois amigos, é prévia aos ataques informáticos, não sei o que Agostinho diria dos assaltos a ficheiros de empresas gigantescas e governos. Mas certamente seria algo de inesperado, contundente e provocador. De certeza iluminador.

Não sei, também, como se teriam sentido os brasileiros enquanto colónia espanhola. Como escreve Pascoaes e muito bem no Santo Agostinho: “o que não aconteceu nunca esteve para acontecer”. Ou mais ou menos esta ideia. Se não é assim, desta forma também não está mal. Como dizem os nossos amigos italianos: “si non e vero e ben trovato”.