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«O Redondo é uma roda»

Já aqui falei do filósofo, escritor e professor António Telmo, alentejano por adopção e por ascendência do lado paterno, e hoje volto a trazê-lo comigo. Tenho a certeza que voltará a acontecer, pois é uma fonte de inspiração e viveu largamente no Alentejo, que também o inspirou.

Escreve ele nas suas Páginas Autobiográficas:

«Estive no Brasil onde ensinei no Centro de Estudos Clássicos dirigido pelo Eudoro de Sousa e no Centro de Estudos Portugueses dirigido pelo Agostinho da Silva. Ensinei Literatura e Ocultismo nos poetas romanos e nos poetas portugueses (3 anos).

Estive depois em Granada a estudar Ângelo Ganivet e vivi em Tomar a estudar-me a mim. Segui a carreira de professor do Ensino Secundário. Licenciei-me em Filologia Clássica. Depois vim para o Alentejo escolhido pelo Ministério da Educação para fundar a Escola Preparatória do Redondo. E pelo Alentejo fiquei até hoje. Vivo em Estremoz.»

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Hoje serve-me de pretexto para falar do Redondo, da escola que fundou. Antes do 25 de Abril, a primeira escola democrática do país, pelo menos entre as escolas oficiais, e de que foi director. Este facto não foi pacífico, e sabendo-se como funcionava o regime, não é de admirar que tenha tido alguns problemas com o mesmo, até pela sólida solidariedade com o corpo docente. Aqui evoco a escola e as festas. Do Redondo e de Campo Maior, de onde é originária, como referi no início, a sua família paterna. Entre duas terras que modelam em papel as festas, António Telmo.

A primeira e até hoje única vez em que estive nas festas de Campo Maior, pelo menos que me lembre, o meu pai ainda era vivo, mas já se movimentava com alguma dificuldade, por isso escolheu ficar sentado numa esplanada enquanto visitávamos as ruas.

Visitei mais tarde as festas do Redondo e achei a ornamentação igualmente bela, mas sabia que já não me esperaria o meu pai ao fim de uma rua.

Neste mundo linear onde vivemos, não é possível reverter os tempos, o que já não acontece nos mundos poéticos, onde um prato inteiro pode suceder ao mesmo prato partido. Os poetas sempre tiveram grandes intuições que os aproximam daquilo que hoje ainda, para os seres comuns que nós somos, constituem mistérios. Aqui, por mais que eu queira, não poderei nunca frequentar essa especial escola do Redondo, como não poderei visitar as suas festas com o meu pai. É como se a humanidade tivesse um implante que a impede de ver as coisas como elas são, ilimitadas e intemporais. Por isso, serve-nos de bálsamo a imaginação poética, sendo que a ciência também já nos permite sustentar a esperança, ou a convicção, de um dia podermos circular pelo espaço e pelo tempo como não existindo espaço nem tempo.

Consigo, assim, com a ajuda da imaginação, ver-me como aluna à porta da escola do Redondo, em animada conversa com um professor e director muito especial tratando com toda a dignidade os mais pequenos e filosofando com eles sobre a vida, como se cada um fosse um pequeno Aristóteles ou um Platão. Uma espécie de Escola de Atenas no coração do Alentejo, e eu lá no meio. A ouvi-lo dizer um seu poema, acabado de criar:

«O Redondo é uma roda
A Escola um movimento
A nossa terra será toda
Como a quer o pensamento.» António Telmo

É um poema de 1971, até há pouco tempo inédito. Segundo informação de Maria Antónia Vitorino, viúva do filósofo, na parede da escadaria da escola, António Telmo teve a ideia de colocar a roda de uma carroça e, à volta dela (supõe Maria Antónia que o executor tenha sido o seu amigo e colega Armando Carmelo), foram escritos os dois primeiros versos. A roda estava suspensa na parede do patamar que levava ao primeiro andar da escola. Esta funcionava, espero não errar, onde está hoje instalada a Biblioteca Municipal. Um nobre destino para uma nobre escola. Carmelo foi lá professor de Desenho e Trabalhos Manuais, a convite de António Telmo. Tinha apenas frequentado o Liceu, mas segundo testemunhos era um artista nato, apesar de nunca ter chegado a fazer o curso em Belas Artes. De excelente bom gosto, foi o braço direito de António Telmo na escola, no período entre 71 e 73.

“Vejo-os” sem dificuldade. Para isso tenho de me “deslocar” ao Redondo no tempo em que aí viveu, pois se me enganar, arrisco-me a já não o encontrar, por ter ido posteriormente para Borba.

Aproveito e vou em dia de festa. Levo o meu pai, que já não estará limitado no andar, e percorreremos as ruas ornamentadas com a imaginação e o trabalho dos que amam a sua terra. Depois despedimo-nos sem tristeza, por sabermos que poderemos visitar-nos sempre que quisermos, nas festas do Redondo, de Campo Maior, da Ventosa, de S. Mateus em Elvas ou de Nossa Senhora do Rosário em S. Vicente. Não há limites senão aqueles que nós próprios nos impusermos. Porque o tempo é redondo, uma roda onde a morte não passa de um embuste e a nossa vida «será toda/como a quer o pensamento». Antes de deixar a vila, ainda consigo distinguir, no meio do jardim, em cima do coreto, com uma mão cheia de alunos, António Telmo em animada tertúlia, falando-lhes da vida do lado de cá e do lado de lá do véu, de Camões, de Dante, e apontando no céu, as mesmas águias que algumas vezes lhe indicaram o caminho na terra.

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.