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Opinião de Risoleta C Pinto PedroNunca tinha pensado nisso, mas fiquei a saber que os espanhóis que emigraram das aldeias e do campo para as cidades, quando voltam à sua terra não a nomeiam, mas referem-se a esse regresso como o “ir à terra”. Talvez a expressão usada seja “pueblo”, ou algo equivalente. Em Portugal os novos “lisboetas” voltam regularmente “à terra” (sendo que essa terra possui os mais variados nomes) no Verão, na Páscoa, no Carnaval, no Natal, nos feriados, nos fins-de-semana prolongados… ou voltavam, antes da Covid. Mas não é sobre Covid que quero falar, é sobre aquilo que o título já indicia.

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Quando eu era criança também regressava, pelo menos no Verão, à minha terra. Só que não lhe chamávamos assim. Voltávamos ao “Povo”, que era S. Vicente, e íamos sempre à “aldeia”, que era Santa Eulália, e à cidade, que era “Elvas”. Não era necessário dar nomes, toda a gente sabia do que se falava. Também íamos a Badajoz, que era mesmo Badajoz. Badajoz era toda a Espanha ao nosso alcance, toda a Espanha concentrada numa cidade mesmo à mão, concentrada num frasco de xarope para o apetite, numa tablete de chocolate, num caramelo de leite. Espanha era aquilo. Mas a minha terra era outra coisa, era silêncio quase absoluto. O silêncio da hora da sesta. Ocorreu-me isto tudo a partir de uma leitura onde se fala das aldeias abandonadas em Espanha, se não me engano, centenas de aldeias desertas. Um livro, La España vacía, do jornalista Sergio del Molino, fala sobre isto. Tal como o blogue “Pueblos deshabitados”. Em Portugal temos o mesmo fenómeno, que relativamente a Espanha, o jornalista Pierre Assouline afirma ultrapassar o clássico êxodo do campo para as cidades, e equaciona como um abandono sacrificial do interior ao altar da modernidade. Relaciona com a queda de Franco e a necessidade, sentida pelos espanhóis, de futuro, de progresso, de renovação.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

E fala do silêncio absoluto destas aldeias, dos seus corpos oferecidos ao tempo, cobertos pelo desgaste dos dias, dos meses, dos anos, e diz que o que se experimenta ali é uma espécie de luto pelos vivos, por toda a vida que ali houve e que se deslocou, pulverizando-se, para outros lados.

Em Portugal isto também aconteceu, mas não em tanta quantidade, e acredito que um movimento já há alguns anos iniciado de regresso a aldeias abandonadas, persista. Porque muitos são casais jovens com filhos, são pessoas com profissões técnicas desenganadas das ilusões e sedentas de contacto com a terra. Assim seja.

Depois do primeiro confinamento verificou-se uma corrida à compra de vivendas fora das cidades. Não é bem a mesma coisa, foi mais o sentimento de que se viessem outros confinamentos seria melhor vivê-los no campo do que num apartamento na cidade. E é verdade. Mas não deixa de ser a mesma coisa ao contrário. Não o apelo da terra, mas o aproveitamento um bocado estéril e sem reciprocidade, do melhor que a Natureza tem. Um parasitismo em sentido inverso. É preciso, quando se procura um lugar, que não nos limitemos a ir buscar aquilo que ele tem, generosamente, para dar, mas que estejamos dispostos a oferecer o melhor de nós. Não tem de ser, necessariamente, um trabalho agrícola, pode ser, perfeitamente uma actividade artística e/ou intelectual ou outra, mas o sentimento de valorização, gratidão, adoração ou sacralização deve estar presente.

La España vacía - Sergio del MolinaComo quando eu percorria as ruas da minha aldeia sob o incêndio do sol, sob o peso do silêncio e escutava a vibração existente para além dele. Porque o silêncio não é totalmente silencioso, ele tem um som, e se não forem os grilos e as cigarras, os cães ladrando ao longe ou os pássaros procurando o melhor abrigo sob a árvore, é um crepitar leve, mas por vezes quase ensurdecedor de musicalidade distante, talvez das esferas, que me acompanha desde a infância e estou agora a ouvir. Assim como quando fechamos os olhos não é o escuro que se nos apresenta, mas uma vibração em forma de luz que acompanha a vibração sonora que ouvimos. Luz e som, vestígios de estrelas em nós, que trazemos de um passado que não conhecemos, mas que deixou vestígios que transportámos para a terra.

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Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.