Centro Educativo de Vila Fernando
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Vila Fernando é uma terra triplamente nomeada, pois para além de já ter sido conhecida como Alcarapinha, tem ainda o nome de Aldeia da Conceição, devido à sua padroeira. Uma das razões por que se tornou conhecida, foi a existência de uma Colónia correccional destinada a jovens delinquentes. Entre 1895 e 2007. À entrada estão inscritas as letras que formam uma expressão mais civilizada: “Centro Educativo”. Foi um projecto criado de raiz, e para a época, à luz da nossa pequena dimensão, pode considerar-se exemplar e monumental. Uma aldeia praticamente auto-suficiente dentro da vila, e que, ainda por cima, criava postos de trabalho. Possuía variadíssimas oficinas, que não só tinham a valência de aprendizagem, mas também de utilidade, da electricidade à serralharia mecânica, passando pela alfaiataria, sapataria, padaria e muito mais. Hoje fazem-se workshops de algumas destas actividades. Caríssimos. E programas de televisão. Tudo muito fino. Chic a valer, diria o Ega do Eça. Estão na moda. Na altura eram pura sobrevivência. Os meninos sabiam como nasciam os borregos e de onde vêm os ovos. Não tinha segredos para eles a herdade onde tudo era produzido: legumes, pomares, ovos, criação de porcos, produção de carne, lagar, adega, vinhas, sobreiros, vacaria, ovelhas, produção de manteiga, queijo… A escolaridade era assegurada aos que não a possuíam, bem como a prática de desporto, balneários e ainda uma sala de espectáculos. Alguns dos internos, em idade de secundário, eram diariamente transportados a Elvas. Os que não sentiam a vocação para os estudos, pequena parte, trabalhavam no campo. Havia uma banda filarmónica formada por alunos, que chegou a ter cerca de trinta executantes. À luz da época foi um projecto bem intencionado e de certo modo inovador, arquitectonicamente interessante, que a partir dos anos sessenta teve de ser reformulado devido à mudança de legislação relativamente ao trabalho infantil. Não sei como se encontra hoje, mas há pouco mais de meia dúzia de anos tive oportunidade de visitar o espaço, completamente abandonado e vandalizado. Uma das minhas interrogações, foi: que terá acontecido aos instrumentos da banda? Já os imaginava derretidos, que o metal é valioso, ou vendidos no mercado paralelo. Mas quando por lá andei, num dos dias fui parar, quase sem saber, ao Museu Arqueológico e Etnográfico de Vila Fernando, um espaço pequeno, acanhado, e embora visivelmente acarinhado, necessitando de mais ampla estrutura. Que poderia ser, por exemplo, o antigo Centro Educativo, hoje um exemplo do que é a atitude deseducativa a nível social, no desrespeito pelas estruturas existentes e desprezadas. O amplíssimo e polivalente espaço não esgotaria aqui a sua serventia. Muito mais lá cabe. Tudo, menos o abandono. Há que honrar os espaços, quem os criou e quem por lá passou. Alegrou-me o facto de ter encontrado no Museu pelo menos alguns dos instrumentos musicais. Por onde andarão os outros?

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“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

O encerramento da colónia não deixou de afectar a vila, que vivia, em parte, do trabalho que o centro também produzia, e do intercâmbio. Havia vida na vila, actividade, bailes, crianças, escolas, teatro, numa terra que já passou dos mil habitantes e hoje andará pelos duzentos, com uma grande taxa de ocupação do Lar. Existe um vídeo na Internet intitulado “Vila-Fernando: Memórias”, que recomendo. Tenho a certeza que os jovens que o frequentaram, por muito dolorosa que tenha sido a sua passagem por lá, longe das famílias, lamentariam ver assim ao abandono aquela que durante alguns anos, para o bem e para o mal, foi a sua casa. É evidente que a mudança é a base da vida e as coisas não se mantêm eternamente como uma vez foram. E acredito que se for investigar as razões pelas quais este espaço se encontra assim votado ao ostracismo, em processo de degradação progressiva, encontrarei mil e um motivos de ordem burocrática. O Centro Educativo não poderia manter, por todas as razões, o mesmo carácter. Mas a estrutura está lá, existe, e se a recuperação de jovens em risco evoluiu (será?) também o espaço que já serviu para esse propósito, hoje abandonado, terá de evoluir. Era a estas situações que valia a pena aplicar o Simplex.

Falei aqui no outro dia em intercâmbio cultural entre Portugal e Espanha na área raiana. Aqui está um espaço excelente. À espera de cair de velho, por ausência de manutenção e de falta de uso. Alguém ouve? Alguém pode? E se pode, quer? Enquanto isso não acontecer, fica a memória ou a imaginação de gerações de adolescentes e jovens retirados de seu meio, e ainda assim entregues na sua conformação e generosidade a uma vida nova, diferente, de sabor agridoce, que não sendo perfeita, continha novas oportunidades que se ofereceram a alguns.

Vivemos num tempo em que o abandono é uma banalidade. Abandonam-se idosos, crianças, animais. E casas, e jardins, e objectos. E sonhos, e o planeta, ele também obsoleto nesta cultura do novo, do deitar fora para adquirir algo de raiz. O problema é que com os planetas a coisa fia mais fino…

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.