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Opinião de Risoleta C Pinto PedroCapelas Imperfeitas, o décimo e mais recente volume das Obras Completas de António Telmo (o filósofo que não sendo alentejano aqui viveu a maior parte da sua vida e é uma das mais importantes vozes da filosofia portuguesa contemporânea) contém, entre outros inéditos, um texto belíssimo e marcante, intitulado “Diálogos do Mês de Outubro”, que acolhe uma passagem onde escreve:

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«O Vale do Infante é um lugar aprazível da Serra d’Ossa, a doze quilómetros de Estremoz, um dos poucos oásis que ali restam numa terra secada pela sede insaciável do eucalipto. O aglomerado das casas está no fundo da vertente que desce da estrada ao alto para uma ribeira em baixo, o vale abre-se largamente para o lado do poente e ali os olhos podem saborear a alegria de pousarem na distância. Em frente da moradia há um pequeno terraço onde tiveram lugar estes diálogos do mês de Outubro.»

venite-in-silentio-convento-sA Serra d’Ossa é uma parte do Alentejo que não estando propriamente ao lado da minha terra (São Vicente e Ventosa, Elvas), não fica assim tão longe, mas só em adulta vim a conhecê-la, aquando da parceria com a Companhia de Dança Amalgama, com a qual, enquanto escritora, juntamente com outros criadores de diversas áreas artísticas, estive em residência artística no Hotel Convento de São Paulo, ao longo de nove meses. Tratava-se de criar uma coreografia e de escrever um livro. Coreografia e livro, com o título de Venite (in silentio), a inscrição à entrada do Convento, tiveram nascimento, curiosamente, em Outubro, e foram resultado de um diálogo entre a dança, a literatura, a voz dita e cantada, a música, a fotografia, o vídeo, as artes plásticas… O lançamento do livro e a estreia da coreografia ocorreram na mesma noite, num único evento com duas partes: apresentação e coreografia. Foi António Telmo quem falou do livro, quem generosamente se debruçou sobre o seu conteúdo e sobre ele teceu as considerações que lamento na altura não ter gravado. Mas ficaram registadas, e com que emoção as vi, no seu exemplar: anotações e comentários à margem. Já depois da sua partida, foi quando tive o privilégio de folhear o livro onde foi grafando as suas reflexões.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Tal como o Vale do Infante, é este Convento e suas terras um oásis em plena Serra d’Ossa. Ainda hoje recordo a força inspiradora do espaço, como se do século XII vozes ainda ressoassem contando a história de cada pedra, de cada semente, de cada torrão. Já aqui falei sobre algumas destas experiências, há umas semanas atrás na crónica “Saltimbancos na Serra d’Ossa”, mas hoje o que me moveu são estes diálogos de António Telmo, trocados entre algumas figuras grandes da Filosofia Portuguesa: Álvaro Ribeiro, José Marinho e um terceiro onde se sente a hesitação do filósofo (não esquecer que se trata de um inédito não concluído) pois umas vezes chama-lhe Leonardo Coimbra outras Eudoro de Sousa. E onde é que vai “levá-los” para os “ouvir”? A um terraço do Vale do Infante. Um oásis no meio do deserto em que estava e está a tornar-se Portugal. Não só pela seca, pela desertificação meteorológica e humana, mas sobretudo das ideias, da inteligência, da delicadeza, da solidariedade, da convivência, da amabilidade, daquilo a que Jaime Cortesão chamou a plasticidade amorável do português. Nada disto está morto, apenas em hibernação. Como tal, é preciso ir nomeando, praticando, para que não esqueçamos. Para que, quando houver terreno fértil e vento favorável, possamos voltar a semear, a regar, a colher. Entretanto, podemos ir lendo o que escreve, para alimentarmos as nossas consciências:venite_2

«A razão é, para Álvaro Ribeiro, o espírito do homem, porque, entre todos os seres que povoam o Universo, só ele dispõe da palavra, mas sem as notícias que lhe são dadas pela intuição, sem as audácias da experiência que promove a viagem por mundos antes não conhecidos, sem a imaginação que desmatematiza a palavra e a torna mágica e operativa, seria uma pobre e infecunda razão, ilusoriamente contente de si, rolando sobre si própria indefinidamente.»

Venite-livro-md10250913101Ou, como diz de modo menos elaborado, mas profundamente vivido, o neurocirurgião James. R. Doty: «Precisamos apenas de olhar para a nossa própria mente e para o nosso próprio coração».

Qualquer lugar serve para o fazer: um terraço no Vale do Infante em plena Serra d’Ossa, um arranha-céus na América do Norte, uma varanda virada para o Tejo em Lisboa, ou uma janelinha a espreitar timidamente a vasta planície, numa aldeia alentejana.