Sapateiro
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Apresentei, no passado sábado, na bela Biblioteca Municipal de Elvas, um livro de José Pais de Carvalho intitulado O Caixeiro-Viajante. Não vou aqui reproduzir tudo o que disse, apenas dar destaque a alguns aspectos que me evocam um Alentejo, um interior, um Portugal, um mundo… em vias de desaparecimento.

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A narrativa decorre numa vila alentejana, e o caixeiro-viajante com seu negócio de ouro é o elo que até ela nos conduz. Uma mulher que não se conforma com o estatuto tradicional de reclusão e conformismo, um sapateiro que lê nos sapatos como na alma das pessoas e um bêbedo que diz em voz alta o que mais ninguém se atreve, compõem um ramalhete que não se limita a eles, mas foram estes que fizeram mais eco dentro de mim.

O caixeiro-viajante, personagem, narrador e autor, poderia corresponder, também, ao arquétipo do contador, aquele que, ao mesmo tempo que entretém, vai abrindo as consciências para outras perspectivas ou olhares. Antes, no largo ou à lareira; aqui, à sombra de um livro.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

O sapateiro, como eu referi lá na biblioteca, lê nos sapatos como em folhas de chá ou em borras de café. É quase um profeta. O bêbedo recita versos e diz verdades, o que é aproximadamente a mesma coisa. Qualquer um deles pode ser encontrado na nossa literatura tradicional, desde a mais remota até ao século XX.

A minha avó, que me contava histórias radicais, talvez por antecipar que eu viria a ser escritora, contava-me, tinha eu por volta de 2, 4, 6 anos, a história de um sapateiro cuja mulher o deixara para fugir com um pintor, através de um buraco na parede que dividia as casas respectivas, buraco coberto por um quadro que o pintor fizera do sapateiro. A perversidade no seu grau máximo. Mas a minha avó era inocente e eu também. Ela contava uma história que lhe fora transmitida e eu ouvia-a, como elos de uma cadeia que não começava nem terminava em nós. E era tudo.

Hoje, ao ler a história do caixeiro-viajante, duvidei que o sapateiro da minha história de pequena se tivesse deixado enganar. Acho que ele sabia. Não é possível, um homem sábio como ele, que sabe ler nos sapatos a alma de quem os calça, não saber do que estava para ocorrer. Permitiu que acontecesse o que foi uma sorte para si. Nem toda a mulher merece ter ao seu lado um sapateiro clarividente e compassivo. Nada contra as mulheres, que também podem ser sapateiros e muitas são sábias. Aqui não se trata de géneros, mas de saber ter um olhar atento aos pormenores, um olhar particular às coisas pequenas onde se espelham os grandes acontecimentos cósmicos. As mulheres, habituadas a mudar fraldas e a limpar o chão, não andam longe da sabedoria dos sapateiros, pertencem a uma confraria comum, a dos sábios humildes, a dos que sabem ler sinais onde os outros nada vêem.

Sobre estas personagens acima referidas, disse na minha apresentação:

«Uma terceira personagem se junta ao escritor e ao sapateiro, formando uma trindade: o bêbedo. Se os dois primeiros se constroem pela observação, análise e reflexão no seu ofício, o terceiro é impulso puro, não é conhecimento, é a loucura impudente e imprudente que não reflecte, mas aponta. Tem em comum com o sapateiro pertencer a uma linhagem literária oral e escrita de personagens-tipo dos contos e romances tradicionais a Gil Vicente, mas o sapateiro encontra a sua sabedoria no chão, junto aos pés assentes na terra, lendo os sinais nas solas «atento e compassivo», quase zen, um buda no Alentejo, e o bêbedo, pelo contrário, encontra a inspiração no ar, nos sopros de loucura que circulam com os ventos. É o bobo, o imprudente, o que diz o que mais ninguém se atreve, porque não sabe o que diz:

“como se da garganta um torpor se soltasse”

Também na literatura tradicional, a sabedoria sai da boca dos simples».

Muito provavelmente, o outro sapateiro já teria consertado sapatos do pintor. Se este fosse inteligente calculava que os sapatos o teriam denunciado. Mas não o era a esse ponto. Apenas sabia fazer buracos nas paredes. E ficar para a história, não como pintor, mas como alguém que entrava, abusivamente, em casa das pessoas. Provavelmente descalço, não sei, a minha avó também não devia saber… Mas tinha a sabedoria das grandes histórias onde o arquétipo é tudo, e respeitava-me na minha inteligência de menina contando-me fábulas de pessoas grandes sabendo que um dia as iria rememorar como um património singular.

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.