Publicidade   
   Publicidade   

Quanto mais se aproxima a Noite de Natal mais à minha memória vêm os inesquecíveis e tão doces momentos vividos na minha infância.

   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 

Como os tempos eram diferentes há sessenta anos atrás! Não o digo por ser saudosista mas porque a vida me ensinou a não esquecer para melhor avaliar o quanto tenho aprendido e vivido.

Eram tempos de pouca fartura, vida difícil para uma maioria do povo da minha Aldeia de Santa Eulália, no concelho de Elvas. Gente pacata e trabalhadora, conformada com o peso da enxada e da charrua mas que não deixava nunca de amar e sentir cada momento, à sua maneira .

Com pouco se satisfaziam as crianças do meu tempo. E assim éramos, talvez, mais felizes do que as crianças de hoje que vivem atoladas em brinquedos em doces e tantas coisas mais com as quais ninguém poderia alguma vez sonhar, então.

Na minha casa os doces eram escassos. Comer de vez em quando umas «fatias paridas» era já um luxo. Para quem não saiba o significado desta expressão popular tão usada na minha Aldeia, direi que era pão já seco, partido em fatias, passado por leite e ovo ( se os tivéssemos ou apenas por água morna), frito em azeite e polvilhado com açúcar e canela.

Mas, ao chegar a Noite de Natal não havia ninguém ou quase ninguém, mais abastado ou pobre que não se preparasse para fazer as nossas deliciosas «filhoses, azevias e nógados».

Eram feitos os doces na própria Noite do Menino, à volta da lareira. A minha Mãe preparava o recheio das azevias de véspera para ficar mais riginho mas tinha que o esconder não fosse alguma boquinha gulosa prová-lo.

“Canto a minha terra, a minha gente ! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo, a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho

O Alentejano sempre soube sempre tirar partido do que a terra lhe dá com abundância e , como tal, mais económico. Esse recheio feito com grão de bico é a prova disso. Em nenhuma outra parte de Portugal se faz esse doce. E quem o prova , gosta muito mas não consegue identificar o sabor. Coisas só nossas!

Então, durante o serão da mais mística Noite do Mundo, a minha Mãe sentava-se perto da lareira numa cadeira baixinha com uma tábua sobre os joelhos a tender a massa com o rolo de madeira que ainda hoje guardo com muita ternura e o meu Pai punha o recheio na massa , dobrava -a e com a cartilha era cortada , pronta para ir fritar na frigideira colocada sobre a trempe, no lume bem aceso.

E nós, crianças, aconchegadas à volta do lume por causa do frio que fazia, aguardávamos, ansiosas, as primeiras azevias para matarmos o desejo.

Era uma noite de trabalho e, enquanto se iam fazendo as filhoses íamos cantando ao Deus Menino. As filhoses eram também muito apreciadas por todos nós. Colocadas em grandes pratos de louça antigos, metiam cobiça a qualquer hora.

Mas a minha Mãe não prescindia dos seus «nógados» hoje muito esquecidos na prática culinária Alentejana. Eu já os tenho feito e aconselho as minhas amigas a fazê-los pelo seu alto teor calórico muito necessário neste período de inverno. Nada têm que ver com o «nogat» que se vê no comércio.

Aqui está a minha receita para vos deliciar com tão excelente doce Alentejano:

Ingredientes:

3 ovos, sumo de 1 laranja (1dl), 70 g de banha de porco alentejano, 400g de farinha sem fermento, 1 pitada de sal, azeite q.b. para fritar, raspa de 1 limão, 500g de mel alentejano, 2 ou 3 colheres de chá de canela em pó.

Preparação:

  • Coloque a farinha, a banha derretida, o sumo de laranja, os ovos, o sal numa taça e amasse bem até não se pegar às mãos;
  • Deixe descansar, abafada, durante 20 a 30 minutos;
  • Estenda a massa em forma de rolinhos compridos e finos;
  • Corte-os em pedaços de 1cm e frite-os em azeite;
  • Aqueça o mel com a raspa de limão e a canela. Deixe levantar fervura e retire do lume;
  • Junte a massa frita, coloque sobre um tabuleiro, dê-lhe forma cilíndrica com as mãos, molhando-as em água fria para não se queimar;
  • Deixe arrefecer, corte em fatias fininhas e pode servir à sua família.

Bom proveito e que estes belos doces de Natal tornem os seus dias de vida também mais doces!