Zurbarán
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Opinião de Risoleta C Pinto Pedro

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Se há espaços onde me sinta bem são os museus, alguns em particular. Neste momento, em que os museus reabrem com algumas cautelas e restrições, as condições estão reunidas para a observação contemplativa. Contudo, a obra de que falo foi observada antes da pandemia, no Museu Nacional de Arte Antiga. Uma secção cultivada pelo Museu consiste num espaço numa das salas, dedicado à “Obra Convidada”. Trata-se de uma obra que ali é exibida temporariamente, e esta esteve presente entre 20 de Setembro de 2019 e 12 de Janeiro de 2020. Trata-se de um quadro do genial Zurbarán e é proveniente da Livraria do Convento de la Merced de Sevilha, mas é actualmente acolhido pela Academia de San Fernando. Chamou-me a atenção por variadas razões: por ser Zurbarán, que me encanta sempre, quer seja no Museu de Arte Antiga, quer seja no Museu do Prado, em Madrid, ou onde agradavelmente o encontre. É um pintor que cria um silêncio em mim que não sei explicar. A outra razão por que me chamou a atenção, foi o facto de Zurbarán ter nascido em Fuente de Cantos (Badajoz), o que para mim é já ser um bocadinho alentejano, porque no meu imaginário infantil Elvas e Badajoz são irmãs. Por outro lado, o vazio pleno de vibração que dentro de mim sinto quanto contemplo as suas obras austeras e silenciosas, assemelha-se à emoção num dia quente perante a vibração infinita da planície do Alentejo.

A pintura que esteve temporariamente exposta representa Frei Pedro Machado, que, juntamente com a sua confraria, se dedicava ao resgate de cativos. Não consegui colher mais informação sobre ele, mas gostava de o conhecer melhor.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

A pintura de Zurbarán, pelo menos a mais conhecida, ou aquela que eu conheço, normalmente consiste em retratos individuais de grande porte, talvez um pouco acima do tamanho natural,   que apresentam uma dramaticidade muito espanhola e muito barroca, com frequentes claros escuros.  Sinto-os como se estivessem vivos. Nesta pintura, o teólogo Frei Pedro Machado escreve em pé, em posição não muito cómoda para a escrita, quase premonitório, como quem segura um “tablet”, veste de branco iluminado, e ao lado uma mesinha de apoio coberta de um pano vermelho ostenta um livro. É um intelectual, o seu cenário confirma-o expressivamente. O palco em forma de pintura. O facto de a actividade de escrita se fazer de pé contribui para o espectáculo da representação. O contraste não se faz apenas entre os claros e os escuros, o vermelho e o branco, também a surpreendente juventude das mãos dialoga, dramaticamente, com o branco do escasso cabelo.

ZurbaránComo não posso ir muitas vezes ao Alentejo, os museus compensam-me da ausência do silêncio da planície. Esse silêncio vibra permanentemente nos meus ouvidos, onde quer que me encontre, mas uso alguns truques para o intensificar. Um deles são, como disse, os museus, e neles, Zurbarán, com seus austeros homens da igreja, é nave espacial a transportar-me a um tempo e a um espaço que conheço desde sempre, que podem dizer-me que desapareceu, mas que eu continuo a ouvir com os olhos, a ver com os ouvidos.