Opinião - Risoleta Pinto Pedro
   Publicidade   
   Publicidade   

No número 1 da Rua de Elvas, vivia a família Costelas; no 3, a família de Joaquim Charruadas; no 5, José António Vintém; no 7, Rosa Fugueta; no 9, a esposa do Horácio; no 11, a Clotilde Sardinha; nos 13, 15 e 17, António Caramelo; no 19, João Lopes; no 21, Samuel; no 23, Francisco Lopes; no 25, José Rainha; no 27, Engrácia; no 29, José Louro; no 31, António Maria; no 33 e no 35, António Parente; no 37, Vicência Valente. E por aí fora. É a primeira página de uma agenda de 1974 e estes são apenas os primeiros nomes, com os respectivos números de porta, da Rua de Elvas, em S. Vicente. A agenda e a caligrafia pertencem a José Francisco Pinto, meu avô materno, que registou os nomes de todos os habitantes da aldeia. Só na rua de Elvas, que no fundo é a estrada que atravessa a aldeia e a liga, de um lado a Elvas, e do outro a Santa Eulália, como acontece com terras do Alentejo (e não só), são 163 os números ímpares e 134 os pares. Seguem-se a Rua de Água de Banhos, a Rua Nova do Poente, a Rua da Igreja, a Rua de Santo António e a Rua de Dr. Mário Cidrais. Há uma rua gritantemente ausente: a Rua do Lavadouro, a sua própria rua, que devia conhecer como a palma das mãos e que por isso talvez não tivesse necessidade de registar; ou então porque terá começado por ela…

   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 

Eu já tinha ouvido contar, em família, que um dia o meu avô resolvera pintar os números nas casas da aldeia, e aqui está a prova, neste levantamento prévio dos nomes dos moradores, a que atribuiu um número. Suponho que o carteiro terá ficado muito agradecido. Sei agora que isto aconteceu em 1974. É muito comovente ler os nomes da população da altura. Certamente alguns deles permanecerão, ou os seus descendentes, mas muitos terão já desaparecido. Recordo, ou conheço certos nomes, certos apelidos: de familiares meus, mais ou menos próximos (como Brígida Pinto Branco, irmã do meu avô, minha tia avó, mãe do meu primo João Branco, que não deixo de visitar quando por lá passo, no 155, 157 e 159 da Rua de Elvas, casa onde tenho memórias de infância, mesmo ao lado da oficina de ferreiro, do meu tio avô, marido e pai dos anteriormente citados), e ainda outros nomes mais ou menos estranhos, de outras famílias. Mesmo ao lado dos anteriores, o João da Estalagem Brito, de que desconhecia a existência.Os nomes das casas das ruas

De vez em quando, um dos nomes é substituído por uma função; é o caso do depósito da padaria, na Rua de Santo António, no número 10; a barbearia no número 63 da Rua de Elvas (o António Barbeiro vivia no 59, quase ao lado; haverá alguma relação?); a sapataria Calais no 69 e no 71; a padaria Belchiorinho(?) no 75 ainda da Rua de Elvas, o Pompílio no 96 e a oficina do Calais no 134; Camioneta (?) no 29 da Rua de Água de Banhos; e não poderia faltar um (H)Espanhol numa aldeia da raia, aqui no 8 e no 10 da mesma rua, onde havia a garagem do José António no 18. Na Rua Nova do Poente, a Oficina do ferrador no 51 e o salão de baile no 53; um nome causa-me uma emoção especial, Ana Carlota Pedro, minha avó materna. Na mesma rua, a Casa da Junta, no 44. Na Rua de Santo António outra padaria, possivelmente do Afonso Pinto, mesmo ao lado (11 e 13), também irmão do meu avô, sendo o depósito no número 10. Tenho memórias destes locais, mas desvirtuadas, na minha imaginação situando-se na Rua de Elvas. Alguns apelidos desdobram-se por várias casas, por diferentes ruas; é o caso dos Lagartos, Charruadas, Pintos, Vinténs… Há inda um Mudo, um Poupa, um Gato, um Feijão, uma (ou um?) Grila…

Esta pequeníssima agenda que encontrei numa caixa de madeira que me deu a minha tia, com algumas preciosidades do meu avô, como blocos, cartas, apontamentos, é uma mina quase infinita desencadeadora de emoções. É como viajar para o passado e refazer pessoas, casas, relações, vidas. Quase vê-los a entrar ou a sair das portas, sentados em cadeiras de palha nas noites de Verão, conversando de porta para porta. Convivencialidade sem telemóveis. Um tempo que não volta, mas que podemos recordar. Voltarei lá, com a caixinha dos escritos do meu avô, que prometo partilhar com o leitor.

Os nomes das casas das ruas

Artigo anteriorDois novos casos de infecção em Elvas. Há agora dois casos activos
Próximo artigoElvas | Orçamento participativo foi hoje apresentado
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.