Opinião - Graça Foles Amiguinho
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Tantos Verões já passaram, por tantos lugares andei, mas esses tempos da minha infância, vividos na Aldeia onde nasci, tenho-os guardados no mais belo cantinho do meu pensamento, bem aconchegados às memórias das coisas bonitas que vivi.

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Na página 121 do meu livro em prosa e poesia, “Meu Alentejo”, a editar brevemente, poderá ler:

Nas tardes quentes de verão era imprescindível dormir a sesta, na hora de maior calor. Fechavam-se as portas e a janela da nossa casa e só o escuro nos dava alguma frescura. Longe estava o tempo das ventoinhas e do ar condicionado. Tudo se ia ultrapassando, conforme a natureza o permitia. Logo que o calor abrandasse, então já brincava com as minhas irmãs e as minhas vizinhas, no quintal da nossa casa, à sombra das parreiras, fazendo bolinhos de terra molhada que depois secava ao sol.”

Os tempos mudaram muito os costumes, em toda a parte e o Alentejo não é exceção.

Hoje, há outras condições de vida, muito melhores do que há 70 anos. Mas é verdade que, mesmo vivendo muito pobremente, éramos felizes com o pouco que tínhamos, porque amor nunca nos faltou.

Voltando ao “Meu Alentejo”, na página 144, falo assim desse tempo de calmaria:

“Mais um verão escaldante estávamos vivendo na nossa pacata Aldeia. Era tempo de aparecerem os Saltimbancos, famílias pobres, de artistas, que andavam de terra em terra, na sua carroça, puxada por uma égua mal-nutrida, levando um pouco do que sabiam fazer, alegrando os serões de luar intenso, no silêncio do Alentejo.

Logo que se constasse que haveria comédias, a criançada ficava toda satisfeita. Levávamos as nossas cadeirinhas para estarmos bem sentadas, em círculo, e podermos observar a cabrita “Margarita” com as suas habilidades e os palhaços com as suas brincadeiras. No final, vinha uma pequena artista, com o seu chapéu, recolher as ofertas, os poucos tostões que nós lhe oferecíamos.”

Momentos tão simples e inocentes que enchiam as nossas noites de sonhos e fantasias, construindo na nossa imaginação, mundos desconhecidos, cheios de ilusões.

Mas muito mais há para contar e lembrar desses tempos em que tudo era puro, belo e transparente. Tempo em que as invejas e as maldades não faziam parte da nossa vida.

Na página 145 de “Meu Alentejo”, poderá ainda ler:

“Nessas tardes de verão, quando nem sabíamos como se media a temperatura do ar, depois da sesta, chegava a hora do “gaspacho”, aquela sopa fria, feita com água fresca retirada do cântaro de barro, com fatias de pão de trigo, alho picado, azeite, vinagre e pepino, acompanhada com azeitonas, que tanto nos deliciava e refrescava.

Se tínhamos melancia, acompanhada com um pedaço de queijo bem durinho e um pedaço de pão, também era um belo petisco.”

Com pouco, os pobres matavam a fome.

Mas, às vezes, sabia bem ter novas sensações gustativas!

Na mesma página falo de algo muito especial, nesse tempo.

Mais ao fim da tarde, aparecia o “homem dos gelados”, um senhor que vinha de longe, não sei de onde e se instalava na Estalagem do Lagarto. Não imagino como eram fabricados e como os tinha conservados, pois não havia frigoríficos, nesse tempo, na minha Aldeia.

Os gelados eram servidos em cones de baunilha, muito saborosos e macios. Ainda hoje recordo o seu paladar e como era agradável comê-los.”

Será interessante contar às nossas crianças, como se vivia, como se brincava, como nos ocupávamos durante o verão, numa Aldeia de onde não se saía, porque não tínhamos meios económicos para o fazer. Tanto tenho para dizer!

Nas noites de verão era normal as pessoas se sentarem, ao fresco, quando corria uma brisa suave, nos bancos de cimento que já havia em muitas ruas. Aí se passavam os serões, ouvindo histórias contadas pelos mais velhos ou brincando ao esconde-esconde.

Não tínhamos rádio nem televisão. Apenas havia uma televisão na Casa do Povo e, mais tarde, na Sociedade Recreativa. Certas famílias mais abastadas já tinham televisão, mas eram muito poucas, na minha terra. “

Mas quero salientar que, na minha linda Aldeia de Santa Eulália, privilegiada em relação a tantas outras terras em redor, havia desde 1895, uma grande Praça de Touros onde muitas atividades culturais se realizavam. meualentejo

Na página 115 de “MEU ALENTEJO” encontra referências a esses acontecimentos.

Muitas tardes de verão atraíam a Santa Eulália, gentes dos arredores e até da vizinha Espanha para assistirem a grandes Touradas, que ali se realizavam, com toureiros famosos. Uma presença de referência, foi a de Consuelo Conchita Citrón Verril.

Também a grande cantadeira Amália Rodrigues ali atuou, numa noite de verão, teria eu 5 anos. Os meus Pais foram ouvir a grande fadista, mas nós não pudemos entrar. Como a nossa casa ficava perto da Praça de Touros, o que fiz eu? Resolvi ir com as minhas duas irmãs, mais novas do que eu, sem as tias se aperceberem da nossa saída de casa e ficámos encostadas à grande porta de madeira da entrada da Praça, que tinha umas frinchas e de onde eu podia ver o palco e ouvir a grande Amália Rodrigues.”

E para terminar tantas histórias sem fim, que vivi nos Verões da minha meninice, só vos conto mais esta, na página 170 de “MEU ALENTEJO”:

Em certas noites de verão, aos domingos, havia cinema ao ar livre, na nossa Praça de Touros. Ver filmes de Joselito, Sara Montiel ou Cantinflas, era entrar noutro mundo, conhecer outros lugares, ouvir lindas canções, viajar sem sair do mesmo lugar. Era um senhor de Monforte que vinha exibir esses filmes. Nem sempre a minha Mãe tinha dinheiro para eu poder comprar o bilhete. Grande tristeza me invadia. Na minha inocência e criancice, lembro-me de chorar e dizer à minha Mãe que ia chorar na rua para toda a gente saber que ela não tinha dinheiro. Cedo compreendi que havia prioridades e que nem todos os meus caprichos podiam ser satisfeitos.”

Para conhecer muito mais do que era o “Meu Alentejo”, uma obra em prosa e poesia com 222 páginas, que escrevi durante este tempo de solidão e pandemia, brevemente a terei ao seu dispor.