Azinheira
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Tive conhecimento, há pouco tempo, do fabrico de um pão de bolota de azinheira, que pertence à família do carvalho, e povoa extensamente o Alentejo para frescura do nosso olhar quando percorre a paisagem. Asseguro que é verdadeiramente delicioso, este pão. Da publicidade ou divulgação do mesmo pelo padeiro que o fabrica e distribui, consta o seguinte: «Parece um contra-senso, mas quanto mais consumirmos o fruto do carvalho, mais estaremos contribuindo para a preservação desta árvore. É uma lei universal.»

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Sem perceber nada de florestas, acredito que seja verdade. Passa-se o mesmo com os pianos: quanto mais forem tocados, mais se conservam em perfeitas condições de afinação. Um piano que não é tocado desafina e deteriora-se. Como as pessoas. Os nazis fizeram horríveis experiências com bebés, e sabemos todos como as crianças e também os adultos necessitam, para o seu equilíbrio psicológico, de afecto transmitido em forma de toque. Já há experiências que passam por levar animais a lares de terceira idade para interagirem afectivamente com os idosos, que a partir de uma certa idade passam a ser tocados apenas por razões higiénicas, tornando-se seres intocáveis e isolados no meio dos outros.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Também pela mesma razão os médicos aconselham as pessoas de uma certa idade a usarem mais o cérebro, a receberem mais estímulos, a lerem, fazerem palavras cruzadas, trabalhos com as mãos, a memorizarem coisas. O cérebro não se gasta com o uso, pelo contrário, quanto mais usado, mais jovem.

pão de bolotaO mesmo se passa com os corações. Corações fechados, guardados, preservados, mirram por falta de uso, enferrujam, petrificam, encolhem, ganham verdete, bolor. É preciso usar o coração, não é preciso dá-lo, que nós também precisamos dele, mas fazer como aos pianos, para não desafinar. Tocá-lo, conversar com ele, passeá-lo, perguntar-lhe como se sente, o que deseja, sorrir-lhe e ouvir os seus lamentos. Depois secar-lhe as lágrimas e ir para a rua dançar com ele. Mesmo que chova ou faça vento. O coração gosta. E não se estraga. Faz-lhe mal o excesso de ambientes fechados e assépticos. Nesse aspecto é diferente dos pianos; dá-se bem com as correntes de ar. É importante conhecer as necessidades de um e de outro, para não trocar. Embora uma coisa tenham em comum: Corações e pianos gostam de ser tocados. Tendo tudo isto começado com as árvores com que se constroem os jardins do Eden, porque produzem pianos, bolotas e fazem bem aos corações.

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.