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A alimentação está na moda, com todos os tipos de dieta e de estilos, e a alimentação natural dá cartas, num momento em que as próprias sementes são alvo de mutações externas, artificiais, as chamadas transgénicas. Se o cidadão não procurar estudar e pensar por si, se não estiver em contacto íntimo com o seu corpo e as reacções deste ao que ingere, corre o risco de ficar muito confuso com as mais controversas vozes.

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O que fazia bem passou a fazer mal, o que fazia mal já faz bem outra vez, há especialistas de tudo a falar sobre tudo e a confusão é mais que muita. Contudo eu prefiro assim, porque é um desafio à capacidade de investigação de cada um, ao seu sentido crítico, ao seu bom senso e ao seu diálogo interno.

Por exemplo: o azeite, que foi sempre um excelente alimento, continua a sê-lo, mas a cru. Se for cozinhado já adquire toxicidade. Há quem diga que sim, há quem diga que não. Eu uso-o de todas as maneiras, sou meia-espanhola, os nossos vizinhos ingerem-no (fá-lo-ão ainda?) logo ao pequeno-almoço. O meu pai chamava tiborna esta sociedade  do pão com azeite.

O açúcar é a maior fonte de alimentação do cancro e, parece, do Alzheimer; em relação a isso parece haver uma relativa unanimidade.  Felizmente, temos o mel. Enquanto não acabarem com as abelhas.

A banha, que era a base da gordura utilizada no Alentejo, passou a ser demonizada pela maioria (eu, na senda da tradição familiar, continuo a inclui-la nos ingredientes que a receita de mãe e avós recomendam para as azevias e não me passa pela cabeça eliminá-la). Alguns dizem que é preferível à margarina (em relação a isto quase não tenho dúvidas), e outros afirmam que não se deve utilizar, porque deixou de haver porcos desde que cessaram de os alimentar a bolota, o que também não posso dizer que não seja verdade.

Há quem afirme que para o Alzheimer três colheres de óleo de coco por dia fazem milagres e que o coco é a coqueluche da gordura saudável. Pelo sim pelo não, não há mal em entrar preventivamente na dieta.

A manteiga ghee, por seu lado, uma manteiga indiana purificada, é recomendada e celebrada como a “super-manteiga”.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Na minha infância era tudo mais simples. Em casa dos meus pais comia pão com manteiga, e em casa dos meus avós maternos, que viviam na rua do Lavadouro em S. Vicente, interrompia as brincadeiras na rua ou no quintal para meter combustível, que consistia em pão com banha e açúcar amarelo, evidentemente, “pão patêgassucár”; eu chamava-lhe pão com manteiga e açúcar, não fazia distinção entre banha e manteiga; ou pão com toucinho (“pão toucinomai” queria dizer: “mais pão com toucinho”). Hoje aprendi a falar melhor e seria incapaz da associação banha com açúcar, não sei se conseguiria comer pão com toucinho, mas gostava de voltar ao sabor da inocência, quando democraticamente banha e manteiga e toucinho e açúcar faziam parte dos prazeres das pausas. Tanto mais que o pão vinha da padaria do meu avô (penso que ainda a teria) ou da dos meus tios-avós, que dessa recordo-me claramente. Esse pão era feito de trigo verdadeiro, o fermento era feito de pão, a massa tinha tempo para levedar, quero dizer, para dormir e sonhar e crescer e todos sabemos, por experiência própria, que dormir e sonhar são imprescindíveis ao crescimento… das crianças, dos adultos e da massa do pão. Quando não há pressa, quando há… tempo. Somos os modernos mendigos, os que mendigam tempo, mas insistem em bater à porta errada.

No outro dia experimentei colocar manteiga de coco sobre uma fatia de pão autêntico de um cereal do grupo trigo antes das ofensas que foi sofrendo ao longo de anos. Soube-me deliciosamente ao pão da Rua do Lavadouro com banha e açúcar e concluí que, afinal, as viagens no tempo são possíveis e eu tenho uma incontornável evidência. Apenas falta… a minha avó lá dentro de casa a dizer que tem mais que fazer que alimentar de hora a hora pequenas lobas esfomeadas, contudo fazendo-o, barrando as fatias de pão e polvilhando-as com açúcar e sorrisos. Num tempo em que o planeta está à beira do colapso, talvez a diferença, afinal, esteja não no pão, não na banha, não no açúcar, mas no sorriso. Um sorriso para a Terra, de cuidador, com respeito e amor.