Pelo Olhar de Um Antigamente

Paula Freire, opinião
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Foi há 20 anos atrás. Um grupo de mulheres cujo rosto de cada uma recordo ainda quase ao pormenor. Rostos de vidas duras, sofridas, onde cada dia se tornava um lugar de luta para novos recomeços.

Desarmadas de afetos, eram as palavras que tantas vezes lhes serviam de bastão num desabafo contra o mundo. E as lágrimas, que confundiam com os risos, como crianças em busca de um abraço, mesmo que apenas oferecido por um simples olhar. Um ato de perdão de mãos dadas com a esperança a dançar-lhes no limiar do peito, era tudo o que na flor que me ofereciam de cada vez que as emoções falavam por si e, sem peso nem medida, umas contra as outras punham a sala num alvoroço.

Pelo-Olhar-de-Um-AntigamenteSó mais tarde percebi que cada uma dessas flores que levava para casa comigo e, religiosamente, colocava numa jarra da minha sala, transportava consigo uma lição de vida dada por essas mulheres. Com elas aprendi tanto…

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Hoje, recordo aqui a mais velha do grupo. Licínia era o seu nome. Olhos escuros e fundos, mãos enrugadas pelo ardor do trabalho sem pausas, pele morena a gritar a coragem e as forças que o seu espírito teve que abraçar pelos caminhos fora. Serena, consciente do peso da iniciada brancura dos seus cabelos, tinha lições para ensinar às outras. E elas gostavam de a ouvir. Faziam silêncio para escutar melhor com o coração.

Deixo-vos uma história simples da Licínia. Talvez a história simples, longa e dorida de tantas mulheres e homens de um antigamente que ainda hoje lhes contam as memórias. Leiam-na. Tem aroma de humildade.

A minha infância foi muito pobre mas, apesar de tudo, gostaria de vivê-la outra vez. Seria um sinal de que voltaria a ser jovem…

 

Nunca tive um único brinquedo, nem sequer uma boneca, em toda a minha vida. A minha mãe não tinha dinheiro para comprar qualquer brinquedo e o meu pai que, se fosse vivo, teria agora 98 anos, nunca teve um verdadeiro emprego. Infelizmente, tinha dois braços mas apenas uma só mão e, antigamente, não havia pensão de invalidez como existe hoje.

 

Os meus brinquedos e os dos meus irmãos só existiam quando íamos com os nossos pais para o campo. Fazíamos casinhas na areia com as mãos, apanhávamos flores e espetávamo-las na terra. Juntávamos os cacos que encontrávamos pelo chão e fingíamos que era a nossa louça. Andávamos descalços pelo campo. Brincar com os amigos era coisa que só acontecia no recreio da escola pois, à parte isso, tinha que ajudar a minha mãe no trabalho do dia a dia.

 

Só comia pão quando a minha mãe ia à feira e, a 4 tostões cada um (naquele tempo dizíamos 1 cruzado), trazia um “bico” para cada filho. Lembro-me que aquele pão era como se fosse um bolo, uma guloseima, porque só comíamos pão em dia de festa. Durante os restantes dias era a broa que a minha mãe cozia. Tal como acontecia com a galinha, um manjar que só víamos de vez em quando. Durante o ano, os meus pais criavam um porco e depois matavam-no e vendiam os lombos para conseguirem algum dinheiro para orientar a vida.

 

Eu e os meus irmãos também nunca soubemos o que eram fraldas quando éramos pequeninos. Fomos criados com bocados de roupa velha; eram essas as nossas fraldas…

 

Quando tinha os meus 7 anos, os meus pais cuidavam de algumas herdades. Numa delas existia um poço de rega muito grande com uma nora puxada por um boi que andava à volta do mesmo, preso pelo cangote. A nora rodava e a água descia para dentro de uns púcaros grandes. Mas era preciso que andasse sempre alguém junto do boi, a tocá-lo com uma vara, para que ele não parasse. Um dia, a minha mãe e a minha madrinha convidaram-me para eu tocar o boi, com a promessa de que me comprariam um vestido de nylon. Um tecido que havia na altura, muito fininho, mas muito bonito. Eu, para ganhar o vestido lá fui tocar o boi. Mas dei tantas voltas ao poço que começaram a doer-me as pernas e sentei-me no chão. O boi parou. Eu andava mais um pouco e voltava a sentar-me e o boi parava de novo. Como é bom de ver, nunca cheguei a ter o vestido de nylon

 

Um dia, o poço rachou porque tinha uma nascente muito forte. Abriu-se e caiu uma parte da parede para dentro da água. Eu, ao ver o boi pendurado, chorava e gritava a pedir socorro mas não aparecia ninguém. Nem o meu irmão que andava mais próximo a regar o milho que, por ser muito alto, o impedia de me ouvir. Apareceu quando sentiu a falta da água. Veio deparar-se com aquela tragédia e eu lavada em lágrimas. Jamais me esquecerei deste dia.

 

Mais tarde, a rega passou a ser feita puxando a água com um motor a petróleo e, por fim, colocou-se um motor elétrico. Hoje, está tudo posto de parte e essa tal herdade tem agora pinheiros enormes.

 

Numa outra altura, ao sair da escola, fui ter com a minha mãe ao campo. Como estava longe de casa, a minha mãe mandou-me regressar e foi para uma quinta apanhar pasto para o gado. Depois, seguiu em direção a casa com a comida para os animais. Quando chegou era já noite. Ao perguntar por mim, deram-se conta de que ainda ninguém me tinha visto.

 

Todos correram à minha procura mas não me encontravam. Muito aflita, a minha mãe regressou ao campo perguntando a todos quantos encontrava no caminho, e que iam entregar o leite dos animais no posto de receção, se me tinham visto. Ninguém sabia de nada. Só pensava ela que eu me teria perdido no meio do milho que estava enorme. Acordei, então, com os seus gritos e lembro-me que corri para ela e lhe perguntei: “O que foi mãezinha?”. Ela atirou-se ao chão, abraçou-se a mim e não houve ali uma bofetada ou sequer um ralho.

 

O dia mais feliz da minha vida foi o da minha comunhão em que, pela primeira vez, me tiraram fotografias. Foram tiradas por um fotógrafo que, na época, frequentava as festas à procura de clientes e até tinha um cavalito de madeira para quem quisesse sentar-se.

 

Apesar de ter nascido pobre e de ainda hoje o ser, gostaria muito de ter os meus pais vivos, a meu lado, pois eles foram uns pais amigos, lutadores e, apesar dos tempos serem muito difíceis e de todos passarmos bastantes dificuldades, criaram-nos com dignidade e deixaram um bom nome em toda a parte. Somos cinco filhos de dois matrimónios e muito nos orgulhamos uns dos outros. Sabemos dar valor à vida!

 

Felizmente que vivemos melhor agora mas, mesmo com as dificuldades que antes passávamos, as pessoas pareciam ser mais felizes. Havia mais amizade, lealdade, respeito, mais convívio! Onde quer que fossemos, à padaria, à loja, à ordenha dos animais, convivíamos entre todos. Hoje, tudo isso acabou. Vamos aos grandes hipermercados fazer as compras e temos uma vida muito agitada… Afinal, já estamos no séc. XXI e temos que aceitar que os tempos mudaram.

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Paula Freire
Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside actualmente em Vila Nova de Gaia. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada. Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias. O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora de imagens de capa de obras poéticas lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021. Nos últimos anos, descobriu-se também no seu ‘amor’ pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.