Início Ciência Pesticidas controversos contaminam mel a nível mundial

Pesticidas controversos contaminam mel a nível mundial

Um estudo publicado na revista Science na passada sexta-feira, 6 de Outubro, detectou vários tipos de compostos neonicotinóides em 75% das amostras de mel recolhidas mundialmente.

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Os neonicotinóides são a classe de insecticidas mais utilizada mundialmente. Por serem de aplicação tópica, estes pesticidas são considerados menos prejudiciais para o ambiente do que os compostos mais antigos de aplicação em spray. Contudo, a preocupação sobre o impacto ecológico destes compostos já existe há vários anos, dadas as várias provas do efeito negativo destes pesticidas em insectos polinizadores, tais como as abelhas. Vários estudos científicos publicados anteriormente tinham mostrado uma ligação entre a utilização de neonicotinóides e o declínio das abelhas.

Neste novo estudo investigou-se a prevalência de neonicotinóides em 198 amostras de mel recolhidas nos diferentes continentes, à excepção da Antárctida. Os resultados mostraram que 75% das amostras, de todas as áreas do globo, continham pelo menos um dos neonicotinóides testados (acetamiprid, clothianidin, imidacloprid, thiacloprid, and thiamethoxam). Em 45% das amostras foram detectados dois ou mais destes compostos, e 10% das amostras continha quatro ou cinco dos compostos. As regiões com maior número de amostras contaminadas são a América do Norte, a Ásia e a Europa. Segundo a BBC, os resultados europeus são inesperados, uma vez que a utilização destes compostos não é permitida na Europa desde 2013.

Sara Porfírio, investigadora em Glicobiologia no Complex Carbohydrate Research Center, instituto de investigação associado à Universidade da Geórgia (EUA).

O estudo mostrou ainda que as abelhas – tanto selvagens como domesticadas – “estão expostas aos neonicotinóides através da sua alimentação, a nível mundial”. Os pesticidas são aplicados nas plantas e espalham-se pelos tecidos vegetais, sendo depois absorvidos pelos insectos polinizadores ao recolherem néctar. Estes compostos geram problemas de aprendizagem e memória nos insectos, o que prejudica a sua capacidade de encontrar comida, podendo mesmo ameaçar a sobrevivência das colmeias. Dado o papel fundamental dos insectos na polinização de culturas alimentares, sobretudo frutas e legumes, estes resultados são alarmantes.

Embora os níveis detectados nas amostras de mel estejam bem abaixo dos valores considerados nocivos para consumo humano, num terço das amostras foram detectados níveis prejudiciais para as abelhas. “É definitivamente assustador para as abelhas e outros insectos”, diz Alexandre Aebi, da Universidade de Neuchatel (Suíça) e autor do estudo. Mais ainda, segundo os autores do estudo, “a coexistência dos neonicotinóides com outros pesticidas pode ser ainda mais prejudicial para os insectos polinizadores”. “Temos até cinco moléculas numa única amostra. A avaliação de risco é feita testando um composto num organismo. O cocktail não é testado, mas os efeitos mistos devem ser levados a sério.”

Os cientistas não foram capazes de distinguir entre amostras de mel orgânico e não orgânico, o que mostra a falta de conhecimento actual em relação à dispersão e impacto destes compostos em todos os tipos de mel. “Os neonicotinóides são altamente persistentes no ambiente, e são frequentemente encontrados em solos, águas e flores selvagens, por isso era de esperar que fossem também encontrados no mel.”, afirma Dave Goulson, professor de biologia na Universidade de Sussex (UK), não envolvido no estudo. “Em todo o mundo há paisagens inteiras contaminadas com neurotoxinas altamente potentes, que sem dúvida contribuem para o colapso da biodiversidade global. Alguns de nós temos alertado para esta situação há anos, mas muito poucos governos quiseram ouvir.”

Os autores do estudo acreditam que a proibição permanente seja a melhor solução. Contudo, na opinião do investigador principal do estudo, as restrições ao consumo de mel (contaminado ou não) são injustificadas. O doutor Aebi é apicultor Amador e o seu próprio mel foi testado no estudo. “O meu próprio mel está contaminado com três neonicotinóides, em quantidades residuais. Continuo a consumi-lo e a dá-lo aos meus filhos”.

Encontra o estudo publicado aqui.

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Sara Porfírio

Sara Porfírio é Mestre em Bioquímica pela Universidade de Lisboa e doutorada em Ciências Agrárias pela Universidade de Évora. Actualmente a residir nos EUA, desenvolve investigação em Glicobiologia no Complex Carbohydrate Research Center, instituto de investigação associado à Universidade da Geórgia (EUA). O seu trabalho foca-se na análise química e estrutural de polissacáridos (polímeros de açúcares) de origem vegetal e/ou microbiana.
Além da sua dedicação à profissão, procura manter-se actualizada sobre os desenvolvimentos nas restantes áreas científicas, com especial foco nas Ciências Biológicas.