Opinião - Risoleta Pinto Pedro
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Quando vi pela primeira vez o nome dele, pensei que fosse espanhol, e não conhecendo a sua terra de nascimento, Benavila, mais convencida fiquei da sua nacionalidade por mim imaginada, que a sonoridade do nome reforçou. Afinal é alentejano puro, nascido nessa freguesia entre Avis e Seda. Três belos nomes de terras. Conheço Seda e Avis, fiquei com vontade de conhecer, segundo me disseram, o belo berço deste extraordinário poeta repentista e, ao que consta, analfabeto. Trabalhador agrícola, era durante o duro trabalho do campo que constantemente cantava e fazia seus versos. No trabalho como nas festas, nos casamentos para que era convidado pelo seu talento de animador. Não foi feliz, sem sempre o valor é suficiente para preencher a vida. Procurava fazê-lo com os vapores do álcool, um dia não correu bem e partiu, vítima de fogo com que tentava aquecer-se no palheiro onde dormia. Soube de uma menina, noutra terra alentejana, uma criança, também ela vítima do fogo, dentro da casa onde ficara sozinha. Mais ou menos pela mesma altura. Não teve ela o tempo necessário à infelicidade experimentada. Alentejo é fogo: no sol que o queima, na cor da seara que o ilumina e alimenta, na dor em que arde. E faz arder.

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Jaime “da Manta Branca” Velez. Tomei conhecimento da existência deste poeta na página do meu amigo Rui Arimateia, grande conhecedor, pesquisador e divulgador da cultura do Alentejo, e fiquei especialmente fascinada com um dos poemas ali apresentados, o mesmo que aqui coloco. Trata-se de um poema sobre a Criação do Mundo e tem o extraordinário título “Décima da nomeação ou criação do mundo”. É um título que me fascina pela identificação da formação do mundo com a nomeação das coisas.

Quem tiver um bocadinho de interesse em conhecer os vários mitos cosmogónicos, verá que entre os egípcios existia um vazio escuro antes de o mundo ser criado, o qual já continha o gérmen da vida. Segundo os gregos, antes da criação do mundo havia o caos, onde também estava contido todo gérmen do futuro, mas em total desordem. Para os sumérios e os babilónios há uma espécie de luta épica entre entidades divinas e forças desagregadoras como o dragão, representando este o caos, ou as indistintas águas primordiais. No Génesis as coisas não se passam de modo muito diferente, com a separação da luz e das trevas. Poderíamos ir ver os maias, os incas e para além das diferenças de cada cultura e tempo, encontramos elementos comuns, a provar que existe, como tão bem explicou Yung, um inconsciente colectivo onde os povos mergulham para construir seus mitos.

Mas vale a pena determo-nos no mito asteca, segundo o qual houve uma reunião dos deuses para deliberar quem se lançaria na fogueira para se transformar em sol, tendo cabido ao mais humilde o glorioso e sacrificial destino. Terá o nosso poeta “ouvido” este segredo? Terá ele, o mais humilde dos poetas, querido imitar o destino de Nanahuatzin na esperança de criar um novo mundo?

Uma coisa entendeu muito bem o poeta, e por essa razão me fascinou tanto o poema que se segue: que não é possível criar um mundo sem dar nomes às coisas desse mundo. É isso que ele vai fazer no poema: nomear todas as coisas que existem no seu mundo e depois… atirar-se na fogueira. Na esperança de um novo sol, de um novo Universo, de uma nova existência onde os poetas possam ser felizes.

BenavilaNa escultura que lhe dedicou a vila do Cano, onde viveu e morreu, destaco o olhar melancólico com que fixa o infinito. Talvez à procura das palavras perdidas com que criará um mundo mais ao seu contento.

DÉCIMA DA NOMEAÇÃO OU CRIAÇÃO DO MUNDO

Cidades, vilas, aldeias

potes, tarefas e talhas

calhandras, piscos e tordeias

corvos, meandros e gralhas.

Palácios, bairros e vendas

casas, casernas e choupanas

horas, dias e semanas

estórias, contos e lendas

prados, quintas e fazendas

cevadas, trigos e aveias

fortes, prisões e cadeias

limas, limotes e grosas

malmequeres, cravos e rosas

cidades, vilas, aldeias.

Mercados, festas e feiras

saudades, paixões e amor

chuva, vento e calor

lagos, rios e ribeiras

ratos, doninhas e toupeiras

fenos, ferragens e palhas

fogos, fogões e fornalhas

vergas, cestos e cabanejos

salsa, agriões e poejos

potes, tarefas e talhas.

Guitarras, banjos e violas

gaita, flaita e clarinete

calça, casaco e colete

pombos, perdizes e rolas

bebidas, cartas e bolas

atuns, tubarões e baleias

molhos, feixes e paveias

melões, tomates e abóboras

víboras, lagartos e cobras

calhandras, piscos e tordeias.

Galinhas, perus e patos

éguas, potros e cavalos

cigarras, grilos e ralos

panelas, testos e pratos

botas, chinelas e sapatos

lutas, guerras e batalhas

ladrões, patifes e canalhas

leões, tigres e leopardos

abelhas, moscas e moscardos

corvos, meandros e gralhas.

Jaime “da Manta Branca” Velez

(Benavila, 1894 – Cano, 1955)

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Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.