«porque não querem»

Opinião - Risoleta Pinto Pedro
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O olhar estranho do reconhecimento. Uso aqui a palavra “estranho” no sentido de “estrangeiro”: o que nos diz o olhar que os estrangeiros sobre nós pousam, sendo que se trata, neste caso, de um olhar estrangeiro sobre os espanhóis:

«Vocês, Espanhóis, são todos iguais… Um ter sempre razão levado ao absurdo e ainda atiçado pela indiferença perante a morte que parece parte da herança islâmica: “Viva la Muerte!” era o grito de guerra da legião estrangeira espanhola naquela mesma Guerra Civil, e por vezes parece ser isso mesmo: uma vontade fatalista de penetrar em algo que então é chamado o momento da verdade». É um autor holandês que assim fala sobre dois traços do carácter espanhol que não me parece que partilhemos, mas acrescenta, logo a seguir, algo que também não é completamente estranho ao carácter português. Vejamos. Cita ele Sebastiano Foscarini, um enviado veneziano no século XVII à Corte espanhola: «[…] gostaria de dizer que embora os Espanhóis disponham de meios, zelo e espírito suficientes para o restabelecimento do seu reino, não os utilizarão; e embora sejam perfeitamente capazes de salvar o seu Estado, não o farão – porque não querem».

Caius Júlio César, imperador romano, terá afirmado algo semelhante sobre nós, os da Ibéria Ocidental. Semelhante, mas não igual: “estranho povo aquele, que não se governa nem se deixa governar”. Assim lido, parece, à primeira vista, uma característica dos povos peninsulares, a diferença talvez esteja nas causas desta ingovernabilidade. Se no caso dos espanhóis se trata de não quererem, no nosso caso o imperador limita-se a afirmar um facto, sem explicação para o mesmo, que eventualmente não teria. Tê-la-emos nós?

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Seja como for, estes povos da Ibéria, espanhóis e nós, não deixam de ser encantadores ao olhar estrangeiro. Acrescenta o autor holandês referido, de nome Cees Nooteboom, sobre Espanha:

«O que se há-de fazer com um país assim? Odiá-lo ou amá-lo, e creio que é devido a um traço igualmente absurdo e caótico do meu próprio carácter que optei pelo último, e é por isso que estou aqui, na hora errada do dia e na estação errada do ano, a vociferar porque a porta da catedral continuará fechada, por mais algumas horas, no mínimo. As horas espanholas são boas para os Espanhóis, mas são uma maldição para o viajante.»

Castelo de Trujillo
Castelo de Trujillo

Escrevo esta crónica no dia em que António Costa, primeiro-ministro de Portugal, se encontra em Espanha para a celebração de um tratado de amizade e cooperação, durante a trigésima segunda cimeira luso-espanhola, no castelo de Trujillo. No dia seguinte ao chumbo histórico do orçamento de estado no Parlamento português.

Não se governam nem se deixam governar, mas lá vão celebrando tratados, os dois países. Deixaram de se atacar. Do mal o menos. Trujillo pertence à província de Cáceres, e o castelo, de construção árabe, tem data vagamente determinada entre os séculos IX e XII. Não sei se a escolha do local foi simbólica, visto que o castelo data da época em que foram frequentes os confrontos entre árabes e cristãos. Num momento em que uma certa facção islâmica radical ameaça querer reocupar a Península, bom seria que começássemos a governar-nos, para afastar tentações internas e externas de quem tem ambições de nos governar.

O louco TarotNum momento em que uma certa, perigosa e cobiçosa direita saliva e aguça os instrumentos, em que uma certa esquerda assobia, incompreensivelmente fingindo não ver o precipício (a carta O Louco, do tarot, é perfeita para representar a situação), o que se passou ontem no Parlamento de Portugal, salvo o exagero (assim espero que seja…) parece-se inquietantemente com um “Viva la muerte”. Yo no creo en las bruxas, mas é melhor saber que existem, senhores políticos. Normalmente, quando elas se mostram como são, já é demasiado tarde. Brincar aos castelos em tempo de parlamentos, paradoxais e (não então, mas hoje) incompreensíveis alianças para derrubar frágeis, mas ainda assim indispensáveis construções, como fazíamos em pequenos, misturando templários, índios e cowboys, todos o fizemos nas primeiras idades, mas a partir de uma certa altura, há brincadeiras que custam caro…

Viva a vida! É o único grito que vale a pena fazer soar.

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Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.