Publia Hortensia de Castro
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Um amigo, desde há muito tendo a paixão por papéis e livros antigos, costuma frequentar a Feira da Ladra e os alfarrabistas em busca de coisas que possam interessar-lhe, e são muitas. Sabendo da minha infância e do meu nascimento como vizinha de Elvas, resolveu oferecer-me uma das muitas jóias que lá tem por casa, um exemplar do Cancioneiro da Bilioteca Publia Hortensia de Elvas, terceiro caderno da colecção Lusitana Musica, numa edição fac-similada da Secretaria de Estado da Cultura de 1989, com estudo introdutório de Manuel Pedro Ferreira. Música doce para o meu espírito, por múltiplas razões. O Cancioneiro de Elvas, pois assim é conhecido, supõe-se datado do terceiro quartel do século XVI, apresentando vestígios de encadernação setecentista. Esteve oculto até 1940, quando foi descoberto na Biblioteca Municipal de Elvas (daí o seu nome) e reencadernado vinte e cinco anos depois.

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Contém, numa primeira parte, vinte e cinco canções polifónicas profanas (letra e música) e a segunda, apenas texto de romances (composições musicais narrativo-poéticas), glosas e vilancetes, a maioria em Castelhano, com excepção de dezanove, em Português.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Juan del Encina, figura tão importante para o teatro ibérico como Gil Vicente, pré-renascentista, para além de poeta e músico,  aparece como autor de letras e músicas, Pedro de Escobar apenas de músicas, tal como Garcia Sanchez de Badajoz; D. Manuel de Portugal, comendador de Vimioso, contemporâneo de Sá de Miranda e Camões, apenas de letras.

Publia Hortensia (escrita à latina, se escrevermos em Português teremos de colocar os acentos) é o nome por que foi e ainda é conhecida a Biblioteca Municipal de Elvas.

Públia Hortência de Castro, nascida em Vila Viçosa, foi uma mulher notável sobre a qual em tempos escrevi um libreto que se destinava a uma cantata. Por impossibilidades alheias ao libreto e a mim própria, não chegou a concretizar-se a cantata, mas o libreto ficou escrito. Aqui deixo convosco o início. Pode ser que desperte o apetite a algum músico ou a algum coro alentejano. Quem sabe?

CANTATA      VIÇOSA HORTÊNSIA

Libreto: Risoleta Pinto Pedro

I PARTE

LOCALIZAÇÃO: Vila Viçosa,  século XVI

PERSONAGENS: Publia Hortensia de Castro; Branca Alves (mãe)

CANTORES: Soprano (Publia), Contralto (Mãe), coro (o coro 1 representa o povo [umas vezes senso comum, outras está incondicionalmente ao lado de Publia], o coro 2  representa os senhores e os letrados [umas vezes é a voz do poder instituído muito masculino, outras a vanguarda cultural com o seu quê de ousadia]. Por vezes o coro funciona unitariamente como uma espécie de consciência geral, como o coro grego)

Sala Públia Hortênsia de Castro, Biblioteca de Elvas
Sala Públia Hortênsia de Castro, Biblioteca de Elvas

Narrador:

Estamos em Vila Viçosa
Do século XVI.
A donzela que aqui vemos,
Que viemos
Visitar,
Tem entre os dedos
A pena
No lugar
Onde outras usam anéis.

Coro 1:

Esta pena
Que ela tem
Quem a sofre é sua mãe
Não é fácil ter por filha
Uma hortênsia
Que por nada se detém.

Coro 2:

Tem um destino mais alto
Do que as pessoas comuns
Debaixo do que se vê
Ferve um forno
Um athanor.

Coro:

Arde um fogo
O pensamento

Coro 2:

É uma mulher futura
Seu acidente
o momento.

Narrador:

Hoje o  pai Tomaz de Castro
Não se encontra por  aqui
Foi sua mãe Branca Alves
Que logo chegado eu vi.

Coro 1:

É Senhora paciente
Assim se deverá mostrar
Que a inquieta Públia
Como veremos depressa
Não deixa alguém descansar.

Narrador:Cancioneiro de Elvas

Mais fácil lhe é outro filho
O Jerónimo chamado
Menos propenso a sarilho
Mas também menos dotado.
É no entanto um bom homem
E como ireis reparar
Será amparo que Publia
Num tempo em que os homens mandam
Não poderá  recusar.
Como mulher de carácter
Saberá apreciar.
Se ela hoje fosse viva
Poderia com doçura
Essa sombra recusar.

[…]

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.