Raiva, um filme de Sérgio Tréfaut
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O premiado filme português ‘Raiva’, do director Sérgio Tréfaut, abre o 25º Festival Ibérico de Cinema (FIC) no dia 15 de Julho, às 22:30 horas, no terraço do Teatro López de Ayala de Badajoz. Esta longa-metragem de ficção é uma adaptação da novela ‘Seara de vento’ do escritor Manuel Fonseca e conta uma tragédia que aconteceu nos campos do sul do Alentejo em 1950.

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‘Raiva’ narra a história da família Palma, camponeses que vivem as penúrias de um país dominado pela oligarquia dos proprietários de terras. Nesse ambiente tenso desencadeiam-se numa noite vários assassínios a sangue frio.

A história começa quando António deixa a sua precária vivenda no meio do campo e, com uma espingarda, dirige-se à casa do senhor da vila. Após acabar com a vida deste e a do filho, foge, mas rapidamente as autoridades vão buscá-lo a casa. O filme mostrará o que levou o protagonista a tão brutal desfecho.

‘Raiva’ foi o grande triunfador dos Prémios Sophia 2019, da Academia Portuguesa de Cinema. O filme ganhou seis Prémios Sophia: Melhor Filme; Melhor Atriz (Isabel Ruth); Melhor Actor (Hugo Bentes); Melhor Actor Secundário (Adriano Luz); Melhor Argumento Adaptado (Sérgio Tréfaut e Fátima Ribeiro); e Melhor Fotografia (Acácio de Almeida).

A estes prémios acrescentam-se outros conquistados em festivais e certames de cinema internacionais. O filme conta ainda com a colaboração especial do actor espanhol Segi López.

Baseada em factos reais: a ‘tragédia de Beja’ 

Tanto o livro como o filme estão inspirados em factos que acontecem em 1933. Nesse ano, os jornais portugueses publicavam uma história violenta que ficou conhecida como “a tragédia de Beja.” O episódio foi primeira página do Diário de Noticias e a história acabou por tornar-se num mito.

Vinte anos mais tarde, Manuel da Fonseca, escritor e jornalista de renome, investigou este episódio para escrever a novela ‘Seara de Vento’. Na versão de Fonseca o assassino da tragédia de Beja torna-se um herói solitário, vítima do abuso de poder e símbolo da resistência. O livro é um grito de indignação perante a la injustiça social no Alentejo, tem um sentido épico e militante, marcado por um certo romanticismo político.

No entanto, na versão cinematográfica de Sérgio Tréfaut a história não tem nada de romântica, nem de naturalista. Não há nenhuma chamada ao sentimentalismo ou ao idealismo. Não se oferecem promessas de um futuro melhor.

‘Raiva’, um retrato da injustiça social

A injustiça é retratada em ‘Raiva’ como um ciclo que se repete, e continuará sempre a repetir-se através de novas formas, embora toda a vida se lute contra ela, segundo explica o director do filme, que escolheu adaptar este livro emblemático no Alentejo a um neorrealismo português clássico. O filme, da mesma forma que o livro, fala do abismo entre pobres e ricos, mas no filme os mortos apenas são mortos, não são heróis, nem símbolos.

Sérgio Tréfaut fez um filme silencioso, a preto e branco, “onde as caras e os corpos dizem mais que os discursos”. Criou ainda um espaço atemporal, quase mitológico. “O Alentejo aqui também pode ser o sul da Itália, Grécia, Síria, Arménia, Espanha, América Latina”.

‘Raiva’ é a segunda longa-metragem de ficção assinada pelo realizador português Sérgio Tréfaut após a ‘Viagem a Portugal’. Tréfaut conta com uma ampla experiência como director de documentários, com títulos como ‘Treblinka’.

Hugo Bentes, ator protagonista, irá assistir à apresentação de ‘Raiva’

O actor Hugo Bentes, protagonista de ‘Raiva’ assistirá em Badajoz à apresentação do filme no Festival Ibérico de Cinema. Hugo reside em Beja, e foi escolhido por Sérgio Tréfaut para protagonizar este filme embora não fosse actor. Hugo Bentes é técnico de som da Câmara de Serpa e cantor num grupo de canto alentejano. No seu primeiro papel ganhou o Prémio Sophia de melhor actor.