Recordações da Casa Verde

Paula Freire, opinião
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Desde a adolescência que uma grande parte de nós vai edificando dentro de si os seus ídolos. Reais ou de ficção, começam a habitar os nossos dias, desejos, identidade. E, outros tantos que, não sendo ídolos, são alvo da nossa quase adoração. Talvez pelas características que lhes vemos como ideais ou pela representação de tudo o que gostaríamos de ser ou de ter.

No que a mim me toca, não me recordo de algum dia, pessoa de elevado mérito social ou do conhecimento público, ter conseguido provocar-me esse impacto emocional. Desde criança que o meu olhar se distraiu sempre mais com os pequenos detalhes escondidos na plateia, do que se fixou no palco aplaudido pela audiência.

A minha atenção gosta de fugir para os rostos anónimos. Para aqueles que, fazendo a diferença, nunca terão sido alvo de ovação. Aqueles cujos dons desconhecemos, muitas vezes ignorados porque não fazem parte de uma elite em vias de acontecer ou já consagrada. Ou porque nunca deixando de sonhar, ainda assim, nunca os sonhos os conduziram pela ávida sofreguidão de serem aclamados, num atropelo constante do outro (como cada vez mais é visível, dada a facilidade concedida pelo advento das tecnologias). Ou porque não tiveram a coragem de se impor, nos meios certos, como fazendo parte de uma qualquer espécie de estirpe à qual, com uma nobre despretensão que lhes admiro, estão certos de não pertencer.

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Porque, sejamos francos, nunca como nos tempos presentes, o sucesso terá sido tão poucas vezes sinónimo de verdadeiro mérito. Acredito até, que hoje o sucesso vá fazendo cada vez mais sucesso pelo percurso inverso do suposto. E os que pelo justo merecimento são conhecidos, creio terem já suficiente louvor para que também eu, ainda que lhes concedendo indubitável valor e todo o meu respeito, seja, no meu cantinho, mais um aplauso no meio de outros tantos.

Por isso, os meus alvos de admiração terão sido sempre esses muitos homens e mulheres, incógnitos, que cruzam o meu caminho e em quem, aos olhos dos que para eles olham parece adormecida a força da sua coragem, a candura do seu toque, a beleza do seu espírito. Os que a vida agita com solavancos que apertam o estômago e esmagam o peito e que, mesmo contra ventos e marés e endurecidos pelo tempo, nunca chegam a perder o brilho da ternura. Essas pessoas tão comuns, mas capazes de transformar o cansaço no amor de cada dia. Saberíamos nós, se os escutássemos com olhos de ver, quantas prendas têm dentro de si para nos oferecer, quantas pérolas de arte e sabedoria humana.

Assim, pelas minhas palavras vos quero apresentar um amigo. Dizia ele recentemente, que depois de gravar o seu nome no vento com a cor vermelha de uma rosa, ficaria “à porta aguardando que algum poeta escrevesse em prosa a história da sua casa verde”. E com agrado aceitou quando lhe respondi que… aceitaria. Mas não sabe ele que o desafio é já hoje. Desta forma. E aqui.

O meu amigo António Reis Silva. Alentejano. Nascido nessa Grândola, vila morena, terra da fraternidade. Um coração de doces nostalgias que soam à magia do nosso cante, sempre que nos oferece como presente ao olhar, num exercício de saudade, as memórias que consigo transporta nas suas aguarelas poéticas; que pinta escrevendo e escreve pintando, com as cores da vida e os sentimentos das planícies solarengas do Alentejo.

As suas memórias de um passado de pobreza. Quando a solidão era o pão de cada dia e apenas as páginas de um livro com folhas já amareladas, serviam como sua companhia. Mas, considero eu, aquela pobreza que se faz lição, que ensina a compaixão, o respeito, o amor ao próximo. A pobreza cuja dureza se transfigura em nobreza do coração.

E terá sido, provavelmente, esse condimento amargo da vida que levou o meu amigo António Silva a procurar outro tipo de alimento. Alimentar-se do encantamento escondido na esperança. A singeleza expressa no rosto das crianças que ele materializa em palavras; dos anciões povoados de sabedoria ancestral; dos seus velhos brinquedos que lhe deram vida a mil sonhos; das telas realistas de uma natureza infinita a ofertar cor e harmonia ao mundo; dos crepúsculos solitários onde a lua e o cantar dos grilos embalam a tranquilidade pacífica do sono. A beleza do encontro com a fé através da aragem da tarde, num passeio por caminhos imprevistos, de mãos dadas com o amor da sua vida, companheira deste arrebatador percurso de recordações.

O meu amigo António que, como um aprendiz das palavras que ninguém escreveu, deixa que a sedução do belo que nos rodeia, inspire os seus versos mesmo controversos, por serem realistas e tristes, pois, como tão bem nos faz ver, alguém alguma vez disse que a vida é toda ela como os dias de primavera?”.

É esta a matéria de que são feitas as paredes e a alma viva da casa verde do António Reis Silva.

Alentejano de alma. Pintor e poeta não assumido mas, para mim, acima de tudo, aos nossos olhos e voz, somente desconhecido. Neste presente que remamos, ele está aqui comigo. Connosco. A pintar com tinta as suas fantasias. A escrever os seus versos em papel que guarda nas gavetas da sua história. Como o próprio diz, não escreve para ele, apenas nos deixa o seu coração.

Estaremos nós à altura de saber igualmente apreciar e aplaudir esta simplicidade que encanta, a honestidade que nele se faz testemunho e gesto? O António Reis Silva está aqui. E os anais da nossa história, onde o conduzirão?

Desejo que as palavras com que, modestamente, presto esta homenagem a um excelente ser humano e artista incógnito que muito admiro, tenham para ele e para os que neste momento me leem, o mesmo significado que ele mesmo atribui às suas: sejam como gotas de orvalho que refrescam as manhãs de primavera (agora outono) nos campos do seu Alentejo.

Deixo-vos, hoje, com um bonito poema seu inspirado na graciosidade e enlevo das terras alentejanas, e um breve trajeto em vídeo por alguns dos seus trabalhos de pintura.

 

“Os Lírios Roxos da Charneca”

Voam aves pela charneca em flor
sobre mil primaveras
em doce sonho
e melodia.
E lírios roxos
pelas encostas,
abrem no calor do dia.

O Monte alentejano
de branco caiado
ajardinado
pelos lírios
e pelas giestas brancas
entrelaçadas
e enamoradas
pelo cantar da cotovia.

Pelos charcos
e barrancos,
em montados de azinheiras,
cantam as moças namoradeiras
os seus tristes martírios.
Com regaços
de margaridas
e de lírios
e cantos da cor da alma
ao som dos sinos d’aldeia,
em planície de tarde calma
ao sol adormecida.

E à noite, a luz da candeia
conta estórias
na charneca florida.

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Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside actualmente em Vila Nova de Gaia. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada. Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias. O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora de imagens de capa de obras poéticas lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021. Nos últimos anos, descobriu-se também no seu ‘amor’ pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.