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O tritão-de-ventre-laranja (Lissotriton boscai) é uma das espécies mais afetadas pela estirpe agressiva de ranavírus que tem causado a morte em massa de anfíbios na Serra da Estrela. Com base no estudo de populações desta espécie, um novo trabalho agora publicado na revista Animal Conservation revela que a recuperação destas populações pode ser mais difícil do que inicialmente se pensava, pelo facto de o número de fêmeas ter diminuído drasticamente e não existir ainda tratamento conhecido para este vírus.

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Em 2011 foi detetado na Serra da Estrela o primeiro de uma série de surtos de ranavirose, que têm causado o declínio acentuado de várias espécies de anfíbios. Em particular, o tritão-de-ventre-laranja (Lissotriton boscai) é uma das espécies mais afetadas. Em várias populações da Serra, enquanto os machos abandonam os charcos após a época de reprodução, um grande número de fêmeas permanece no habitat aquático durante todo o ano. Esta dinâmica tem conduzido a uma mortalidade bastante mais acentuada entre as fêmeas desta espécie (cerca de 90%), uma vez que o ranavírus se encontra na água.

No estudo agora publicado, os investigadores demonstram que este diferente comportamento de machos e fêmeas pode afetar indiretamente a dinâmica da doença, ao levar à redução significativa do número de fêmeas na população e a uma reversão da proporção entre os dois sexos.

“Os resultados dos modelos que desenvolvemos para os próximos vinte anos revelam que as populações desta espécie na Estrela podem ficar em risco de extinção no espaço de dez anos, caso o vírus não seja mitigado”, explica Gonçalo M. Rosa, investigador de pós-doutoramento no Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais – cE3c, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e primeiro autor do estudo. “Dada a elevada virulência deste agente patogénico, uma maior mortalidade entre as fêmeas não se revelou determinante para um declínio mais acentuado das populações quando comparado com um cenário hipotético em que machos e fêmeas registem um nível de mortalidade semelhante. No entanto, os modelos revelam que a recuperação destas populações, quando possível, é severamente condicionada por esta mortalidade direcionada às fêmeas a médio e longo prazo”, acrescenta o investigador.

Para este estudo, os investigadores acompanharam durante cinco anos as populações de tritões-de-ventre-laranja em dois charcos da Serra da Estrela – em Folgosinho, onde os surtos anuais e episódios de mortalidade em massa continuam até hoje, e em Sazes, onde apenas são registados episódios pontuais de infeção sem mortalidade. Com estes dados desenvolveram projeções para as populações para os próximos vinte anos, sob diferentes cenários: considerando surtos anuais que poderiam durar cinco, dez ou vinte anos, e avaliando qual o impacto na recuperação da população, tanto com uma maior mortalidade entre as fêmeas ou com igual mortalidade entre ambos os sexos.

“Os nossos resultados indicam que caso haja um cessar dos surtos, quer por ação de mitigação do vírus ou qualquer outra razão ambiental, isso não implica uma recuperação imediata da população – a recuperação, a ser possível, será mais complexa do que inicialmente se pensava”, explica Gonçalo M. Rosa, investigador também no Instituto Zoológico de Londres (Reino Unido). Embora não exista ainda tratamento conhecido para a doença, têm vindo a ser testadas diferentes formas de minimizar os impactos deste vírus em populações selvagens.

Referência do artigo:

Rosa G.M. et al. (2019) Sex-biased disease dynamics increase extinction risk by impairing population recovery. Animal Conservation. Disponível aqui.

Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais – cE3c
Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva