Procissão do regresso dos Pendões ©António Serra
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Das festas as vésperas

Os devotos mais fervorosos acompanharam ontem o regresso dos Pendões à cidade e fechou-se a porta a mais uma edição das festividades em honra do Senhor Jesus da Piedade e da Feira de São Mateus.

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Longe da imponência do cortejo do passado dia 20, a procissão de ontem, como habitualmente, reuniu poucos fiéis numa imagem bucólica e emotiva que nos transporta para o final de um ciclo e o início de outro: o outono, menos horas de sol, a chegada das chuvas e do frio.

Proponho-me hoje falar de um pormenor que muito me agradou na edição deste ano das festas da cidade: a afirmação da identidade etnográfica da romaria.

Nuno Franco Pires
Nuno Franco Pires, escritor

O processo iniciou-se há anos atrás com o surgir dos Romeiros de Vila Boim que hoje são já figuras incontornáveis. Trouxeram-nos a recriação do antigo hábito dos romeiros das localidades vizinhas se deslocarem à festa em carros de canudos, decorados a preceitos e transportando mantimentos para uma semana de descanso nas imediações do Santuário. Os mais velhos recordaram com saudade as vivências de outros tempos e as gerações mais novas tiveram a oportunidade de constatar “in loco” as histórias que ouviam em casa. Sublinho que, ainda assim, acho que os Romeiros de Vila Boim mereciam ainda mais destaque a cada São Mateus – já lá vamos.

Posteriormente, a Associação Comercial desafiou o comércio local a associar-se à romaria e a adornar as suas montras com objetos e motivos alusivos à mesma e foi com muita satisfação que as mantas alentejanas, os tarros, os taleigos se multiplicaram por todo o centro histórico.

Concerto de Rui Veloso ©Elvasnews
Concerto de Rui Veloso ©Elvasnews

Por fim, tendo-o iniciado no ano passado mas reafirmando a sua aposta na edição deste ano, o município apostou num palco alternativo onde as raízes locais tiveram voz e os grupos musicais das freguesias do concelho puderam apresentar as modas da nossa região, sem falar na reedição dos bailes de São Mateus que tanta fama tiveram no passado. A Praça da Feira soube a pouco e faço votos que, para o ano, possa voltar, melhorada e ampliada. Parece-me determinante para a reconstrução da identidade da romaria com o seu palco em forma de carro de canudo, o casal de alentejanos que tantas fotografias geraram e encheram as redes sociais e, mais importante ainda, deram espaço aos produtos da cidade e do concelho. Queremos mais.

Considero que estão reunidas as condições para, no futuro, ser criado um cortejo etnográfico em que os Romeiros de Vila Boim sejam, justamente, o motor mas aos quais se una uma mostra dos trajes típicos do passado, das mais diversas classes sociais. Recorde-se que nas festas da Senhora da Agonia, em Viana do Castelo, uma das maiores romarias do país, o cortejo etnográfico é um dos pontos altos das festividades.

Para definição do figurino pensei na Joana Leal, essa grande artesã que Elvas tem e que já nos habituou à sua irreverencia, disponibilidade e generosidade. Para o personificar lembrei-me da Associação Arkus cujo talento e determinação são, também, sobejamente reconhecidos.

Num dos serões do arraial, espraiando-se pela avenida da Piedade, proporcionaria uma viagem no tempo e enriqueceria as festividades, dando-lhe um colorido diferenciador. Poderiam também recriar-se os casamentos de São Mateus em que, finda a cerimónia, os casais passeavam pela romaria, seguidos pelos familiares e convidados. E outras tradições ou detalhes que, certamente, os mais velhos serão capazes de identificar e sugerir em detalhe.

Recordar-se-ia o passado para valorizar o presente e garantir o futuro

Fica a dica. Palavras leva-as o vento.