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Opinião de Graça AmiguinhoPerante notícias tão dramáticas como a última que encheu as páginas de jornais e os noticiários das televisões, que nos faz pensar na miséria que ainda existe em pleno séc. XXI, sou levada a interrogar-me, se o caminho a seguir para evitar tais comportamentos, e quantos deles carregados de sofrimento e angústia sem medida, não terá que ser mudado e talvez, até, com um retrocesso de séculos.

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Se há em Portugal um programa de Planeamento Familiar, se quem não quer gerar uma criança a pode matar, legalmente, sem qualquer punição, das primeiras 10 semanas de gravidez até às 24, segundo a legislação em vigor, o que induz uma mulher a aguentar uma gravidez até ao fim, para depois atirar a criança para um caixote do lixo, querendo fazê-la desaparecer, triturada por uma máquina?

A primeira reação é de repúdio e desejo, de uma maioria da população, que essa miserável seja condenada e severamente punida, sem sequer ser ouvida.

Contudo, parece-me, no mínimo, necessário conhecer a história de vida dessa mulher, as suas relações familiares e afetivas, a sua vida social e a sua saúde física e mental, para tentarmos perceber as motivações que teve para cometer esse crime, embora nada o justifique, é certo, pois não só atentou contra a vida de outrem, como pôs em risco, também a sua própria vida.

Todos estes acontecimentos me levam a recuar no tempo e lembrar o que se passava em Portugal, no séc. XV, quando em 1498 foram criadas as Irmandades da Misericórdia, financiadas pelos Senados das Câmaras. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa foi pioneira no acolhimento dos enjeitados que eram abandonados na «Roda», um tambor com uma portinhola, embutido na parede, que girava, de tal forma que, quem colocava o que quer que fosse, dentro do cilindro, não era visto por quem o recebia, do outro lado da parede.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo, a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho

Em princípio, esses cilindros foram criados para receber géneros, roupas ou cartas, para as freiras de mosteiros de clausura, mas também em conventos. Ao deixarem algo na roda, quem o fizesse, tocava uma sineta e a irmã «rodeira» ia recolher o que que lá ficara.

Porém, a partir de certa altura, em tempos de muita miséria, começaram a aparecer na Roda, crianças abandonadas pelos próprios pais. Muitas vezes, essas crianças apareciam com alguns elementos de referência: fitas de tecido, bordados com monogramas ou medalhinhas, para mais tarde poderem ser identificados por quem as abandonara.
Essas crianças eram fruto de relações consideradas «inconvenientes». Eram os chamados «filhos de ninguém», nascidos de raparigas pobres, geralmente, mas não só.

Segundo as Ordenações Manuelinas de 1521 e confirmadas pelas Ordenações Filipinas de 1603, eram as Câmaras que suportavam todos os custos com a criação dessas crianças enjeitadas nas suas áreas, caso não houvesse a «Roda», até aos 7 anos de idade.

Essas crianças não eram «anónimas». Todas recebiam um nome, ou das pessoas com quem conviviam, dos padrinhos, ou até da profissão que tinham. Faziam uma vida normal, casando e trabalhando.
De tanto ser usada -a roda-, passou a ser Oficializada em finais do séc. XVIII, através de uma circular de 24 de Maio de 1783, ordenada pelo Intendente Geral da Polícia do Reino, Pina Manique, em 1783, no reinado de D. Maria I de Portugal, uma rainha piedosa e preocupada com os desventurados, passando a chamar-se Roda dos Expostos ou Roda dos Enjeitados, para pôr fim aos infanticídios e acabar com o comércio ilegal de venda de crianças na raia, onde os espanhóis as vinham comprar.

Chegada a idade escolar, essas crianças entravam na Casa Pia de Lisboa, instituição que as acolhia, educava e preparava para a vida, fundada por Pina Manique em 1780, dando apoio não só aos enjeitados, mas também a órfãos, e ajudando a recuperação, através do trabalho, de mendigos e vadios. A Casa Pia foi, e continua sendo, grande centro de cultura, dando oportunidades únicas, aos que nela se acolhem.

No Portugal de hoje, há também algum apoio a jovens mães, em casas de abrigo que as recebem e aos seus filhos, mas, no caso desta criança deixada no caixote de lixo, segundo o que me foi dado conhecer, a mãe é uma «sem-abrigo», vinda de uma ex-colónia portuguesa, vive numa tenda nos arredores de Santa Apolónia-Lisboa, nunca procurou qualquer tipo de assistência, encobrindo o seu estado e nem sabe dizer quem é o pai do filho.

Triste retrato de uma sociedade na qual há tanta gente sem rumo e sem ideais, numa grande cidade da Europa, no sé XXI.

É urgente ajudar esses miseráveis, pobres de espírito, criando condições para que sejam orientados e convencendo-os de que há só uma vida para nela aprenderem a viver com dignidade e alegria, não estendendo a mão à caridade e não se deixando enrolar nas malhas das drogas, da prostituição e do crime, como sendo esses os meios mais fáceis de sobrevivência que têm ao seu alcance.