Rodilha, memória e afectos

As palavras que aprendemos desde que começámos a reconhecer a linguagem fazem parte do nosso património emocional e espiritual e nunca mais nos abandonam. Por vezes, uma palavra com que sempre convivemos sem grande espanto ou sobressalto, eleva-se perante os nossos olhos e cintila, mostra-se na sua gloriosa amplidão. É o caso de rodilha. Sou de uma terra fronteiriça do Alentejo, e na minha terra, rodilha era a designação atribuída a um pano de limpeza, um pano velho, amarrotado, talvez até semi-roto. Em Espanha, rodilha é o termo para a palavra joelho, o que faz sentido, porque a articulação do joelho é uma das que têm mais mobilidade no corpo humano. Cientificamente, chama-se rótula. Perguntarão: e qual a relação entre o joelho ou a rótula e o tal pano velho?

Conto-vos uma história:

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

Há uns anos vinha fazer limpeza a minha casa uma senhora analfabeta e de uma inteligência surpreendente que eu respeitava, admirava e por quem ganhei profunda amizade. Adoeceu, deixou de poder trabalhar, mas visitava-me de vez em quando, e eu a ela. Às tantas, mudou de residência e combinámos que a visitaria em Maio para ver as rosas do jardim à porta de casa. Mais tarde soube que partira, o que lamentei profundamente, até por não ter podido acompanhá-la na sua última acção neste mundo, na sua retirada.

Avó Joaquina Rosa

Mas falo dela para dizer que se recusava a usar o aspirador, limpava e lavava o chão a pano, de joelhos, usando apenas como protecção dos joelhos, uns trapos a que a minha mãe e as minhas avós poderiam chamar… rodilhas. Talvez essas rodilhas até pudessem adquirir, por vezes, a forma circular, ou de roda, estou a pensar nos suportes redondos como rodas de pano, recheados com tecidos velhos, usados pelas mulheres para suportar a bilha com que iam à fonte buscar água, sobre a cabeça. Tenho uma foto da minha avó Joaquina Rosa a caminho da fonte. Ela, minha fonte, deslocando-se à fonte.

O facto de eu ter nascido numa terra a tocar Espanha, explica que aqueles panos que se colocavam sob os joelhos para limpar o chão se chamassem, então, rodilhas, termo que não encontro no dicionário de Português. Trata-se de um mundo que apenas sobreviveu na minha memória e de mais alguns, suponho. 

A D. Conceição já não está cá e já não se usam rodilhas, excepto em minha casa onde ainda, por vezes, eu mesma me dedico a limpar o chão com panos velhos nas mãos e panos velhos sob os joelhos. Os terapeutas de shiatsu também usam o chão e os joelhos para exercer a sua actividade de massagem do corpo em terapia. Quando procedo à limpeza do chão baixando-me até ele, sinto-me uma espécie de terapeuta pressionando a pele da terra, que neste caso é o meu chão de madeira, como sendo pontos energéticos ou de acupunctura do planeta. O sentimento de cuidar a terra de joelhos sobre ela, essa que me acolheu em segurança quando aqui aterrei, é muito comovente. Isto anda tudo ligado e a língua é uma sábia mestra a que é preciso prestar profunda atenção.

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Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.