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No início de Janeiro de 2004 uma equipa de saltimbancos (mais concretamente entre Janeiro e Outubro), um grupo de pessoas ligadas às mais variadas artes, esteve no convento de São Paulo, na Serra d’Ossa, uns durante mais tempo, outros em estadias mais espaçadas, mas neste intervalo de nove meses, estes actores, bailarinos, artistas plásticos, fotógrafos, músicos, gente da escrita, técnicos das artes da representação, da edição, do vídeo, conceberam, dançaram, representaram, desenharam, fotografaram, filmaram, iluminaram, costuraram, criaram música e interpretaram-na, escreveram, editaram, sonorizaram… Tratava-se de uma residência artística tendo o Hotel Convento como patrono.

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“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Risoleta C Pinto Pedro
Natural de São Vicente e Ventosa, Risoleta C Pinto Pedro é Escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica! É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo!

No dia 1 de Outubro tudo estava pronto para apresentação ao público e assim aconteceu: um espectáculo de dança, coreografia, representação e multimédia, e um livro. O espectáculo chamava-se “Venite in Silentio” e o livro também. Assim se chama. Reflectiam-se como em espelho, foram crescendo ao longo de um ciclo de gestação e foram-se influenciando mutuamente. Os dias no Convento eram intensamente criativos e trabalhosos, com ensaios e trabalhos artísticos e técnicos de preparação de um espectáculo, as noites cheias de acontecimentos misteriosos e inspiradores. Ambos, espectáculo e livro se inspiraram nuns e noutros.

Venite in Silentio é a inscrição dos azulejos da figura de convite que recebe os visitantes à entrada da Igreja, hoje e já na altura desactivada. Por essa razão pôde realizar-se aí o espectáculo da Companhia de Dança Amalgama com quem eu já vinha a cooperar, isto é, para a qual eu já vinha a escrever desde 2000, o ano da criação da Companhia. Mais uma vez isso acontecia, mas desta vez o resultado seria, foi um livro. Passado em parte no século XII, parte no século XXI. Os tempos cruzam-se, no livro, porque também se cruzaram na realidade.

De um dos lados, o livro inicia-se assim:

«- Já viram o que está aqui escrito?

– Venite. É latim?

– Não, é alentejano. Que esperavas que fosse?

– Sei lá, não estudei latim.

Chegaram às seis da manhã. Já vêm muito cansados, pelo que, até a figura de convite em que o frade num azulejo convida a entrar, pode tornar-se “um problema” após uma semana de trabalho.[…] Ainda é Janeiro, faz muito frio, aqui vão experimentar todas as estações, verão as mutações no rosto do convento e da serra, eles próprios mudarão também.»

Do outro lado do livro (é um livro que tem dois começos, consoante o lado escolhido) «O frade leva eloquentemente a mão à boca. O jovem noviço, intimidado, recolhe o tagarelar e segue o irmão mais velho.

Este recorda o dia em que ali entrou pela primeira vez. Tinha a mesma idade do quase menino que agora conduz. Revê-se na imagem física dele. Sente um arrepio. Narciso contempla Narciso. Narciso! Há quanto tempo alguém não o chama pelo seu nome? Quando desenha as iluminuras dedica uma ternura especial ao desenho do N, letra ela própria tão narcísica, tão espelho! Um traço contempla o outro e obliquamente outro traço, comum, os une.

O N é uma letra que se ama a si mesma. Mas a pintura das iluminuras já é praticamente o último elo que o liga ao nome original, uma recordação apenas visual. Quanto ao som, ao quanto tempo não o ouvia!

Entremos com eles. Estamos num convento de clausura em plena Serra d’Ossa, o  Monte de Vénus. Compreenderemos porquê. Mais tarde. Tudo tem um tempo. A compreensão também. A confusão igualmente. Nada dura sempre. Mas fiquemos desde já a saber que “convento” é uma palavra latina  que significa, na origem, “reunião”. E isto é bom que cada um guarde no coração.»

Ora também nós formávamos um pequeno convento dentro do convento e viajávamos permanentemente entre os séculos XII e XXI, entre a Natureza e o mistério. Não nos limitámos a criar um espectáculo, a escrever um livro, tentámos salvar pássaros, fomos visitados por louva-a-Deus, amámos as pedras, honrámos a terra e as árvores, contemplámos os azulejos, estudámos, investigámos, discutimos, experimentámos, e de tudo isso se construiu o espectáculo, se escreveu o livro. Já não consigo distinguir muito bem o que deste livro é ficção, o que foi realidade. Não é líquido que o lado do século XII seja o da ficção e o do século XXI seja o da realidade. Porque, na verdade, formámos um convento no século XXI e várias vezes nos encontrámos no século XII, pois as linhas de tempo várias vezes se cruzaram. O nosso templo foi a serra, e foi a memória dela e das pedras que nos ofereceram, copiosamente, um estranho mundo que tentámos reconstituir. O livro aí está, para quem tiver curiosidade. Não sei se ainda existem exemplares, mas vale a pena tentar junto da Unicepe, a editora livreira do Porto que desceu à serra alentejana para fazer um livro nascido no meio dos corpos dançantes de frades, perdão, bailarinos, de um tempo que já nem sei muito bem situar.

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.