Início Opinião Graça Amiguinho Santa Eulália – a água e os tempos

Santa Eulália – a água e os tempos

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A água é um bem precioso sem o qual nenhum ser vivo pode subsistir.

Ao longo dos tempos tem sido utilizada de diferentes formas e, nos dias que correm, penso que há um uso excessivo desse elemento que só a natureza nos pode oferecer.

Poderá parecer um juízo exacerbado mas, pelo que vivi e vi à minha volta, compreenderão os leitores a mensagem que vos quero transmitir.

Atravessamos um período de seca extrema que apenas, há mais de noventa anos, se viveu em Portugal.

No século passado os hábitos de higiene não podiam ter a dimensão que, com a evolução e melhoria de condições de vida, hoje alcançaram.

Reporto-me às minhas vivências nessa pequena Aldeia deste concelho de Elvas, considerada em toda a região como uma das mais asseadas.

A água que chegava a cada casa era carregada à cabeça , numa grande maioria, por mulheres, as mães de família que, quer chovesse, quer fizesse sol, pela manhã, providenciavam para que não faltasse a água para a higiene pessoal da família, para o consumo na confecção dos alimentos e para a limpeza da casa.

Como os homens, geralmente, saíam cedo para os campos e regressavam tarde eram, efetivamente, as mulheres a arcar com essa grande responsabilidade. E com grande esforço e alguma arte, de cântaro à cabeça, iam enchendo os potes de barro que funcionavam como reservatórios para todo o dia.

As raparigas mais novas aproveitavam para ir à fonte, geralmente, nas horas do serão, no verão, para encontrarem os seus namorados e trocarem umas palavrinhas ou simples piscadelas de olhos.

Todos sentíamos grande responsabilidade na forma como gastávamos a água que tínhamos em casa. Ela não aparecia ali sem o esforço de alguém a quem amávamos e respeitávamos.

“Canto a minha terra, a minha gente ! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo, a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho

A água para bebermos era colocada em cântaros tapados com tampa de madeira, na cozinha, a divisão principal da casa, num poial alto e junto deles havia um copo de esmalte com asa, virado sobre um pires e pelo qual toda a família bebia sem complexos ou nojo.

A higiene pessoal era feita também com muito pouco gasto de água. No verão enchia-se um alguidar médio e aí se iam lavando as diferentes partes do corpo. No inverno aquecia-se uma chocolateira de água, ao lume de brasas e misturava-se com outra fria mas ninguém andava sujo.

As roupas eram lavadas no lavadouro público para onde corria a água não aproveitada da fonte e aí ficava armazenada num grande espaço quase do tamanho do lavadouro, no seu interior, para depois ser distribuída através de canalização com torneiras pelas «pilhetas», pagando-se pela sua utilização.

Lembro-me de a minha mãe ter sempre uma para lavar e outra para enxaguar as roupas. Essa água da lavagem era depois canalizada para as hortas vizinhas do lavadouro.

Os animais tinham à sua disposição um chafariz com água vinda da fonte que depois seguia para o referido lavadouro.

Para as plantas que tínhamos no quintal e para lavagem do chão, íamos buscar água salobra a um poço, perto da nossa casa, ao qual o povo chamava «dos escalitros» por haver lá um eucalipto. Hoje é um lindo lugar de lazer.

Mudaram-se os tempos e ainda bem que assim foi mas perdeu-se muito a noção de poupança do tão precioso líquido.

As torneiras têm água que nem sabemos de onde vem, só sabemos que temos uma fatura para pagar todos os meses .

Só quando as coisas se complicam é que percebemos quanto erradamente temos usado a água.

Neste tempo todos somos responsáveis pela não utilização em excesso desse líquido vital.

Mesmo que a chuva venha não será suficiente para atenuar a seca que o nosso País está sentindo.

Vamos fechar mais as torneiras e lembrar-mo-nos que não está caindo do céu.

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