Aldeia de Santa Eulália
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Chegando à velhice, somos confrontados com recordações de tempos passados e não ficamos por aí.

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Quase sem o querermos, estamos fazendo comparações, tentando descobrir as situações, que apesar da sua simplicidade, nos tornavam felizes e umas crianças tranquilas.

Os verões escaldantes, com um amanhecer radiante e um entardecer suavemente beijado pelas brisas, eram o palco das nossas vidas em tempo de férias.

Longe do mar, a maioria da população nem imaginava o que era uma onda. Só as famílias abastadas faziam férias nas praias e nesse tempo, a Nazaré e Espinho, eram as suas preferidas.

Partiam para banhos, levando uma camioneta carregada de mantimentos e outros acessórios, acompanhados das suas empregadas e por lá passavam, muitas vezes, mais de um mês.

Lembro-me de uma minha tia-avó me contar que viera com a sua patroa para banhos em Espinho e que um dos meninos da senhora se perdera. Foi uma aflição para o encontrarem. Isto passou-se há mais de cem anos.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo, a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho

As ruas da minha Aldeia eram refrescadas pelas árvores frondosas que impediam que o calor penetrasse livremente pelas casas dentro.

Não havia ventoinhas, nesse tempo, penso eu, ou pelo menos, os pobres não as tinham. Nos dias de calor intenso, as portas e janelas fechavam-se para que a temperatura, dentro de casa, se mantivesse o mais amena possível.

Como o chão das casas era em ladrilho, ou grandes lajes, isso ajudava um pouco a sentirmos a frescura nos pés, o que no inverno se tornava insuportável.

As árvores de que me lembro eram as amoreiras, carregadinhas de amoras brancas e pretas, muito saborosas e nutritivas, quando ainda pouco se sabia do seu valor anti-oxidante e cuja folhagem era o alimento dos bichos-da-seda que quase todas as crianças adoravam ver transformar-se em casulo e depois em borboleta.

Durante o dia permanecíamos dentro de casa, ocupando o tempo brincando no quintal, com terra que misturávamos com água e a moldávamos como se fossem bolinhos. Outra ocupação eram os bordados e croché, a leitura e,  em muitos desses tempos de férias, cheguei a reunir à minha volta crianças que tinham dificuldades e ensinava-as a ler, sendo eu uma criança como elas.

À tardinha, refrescados com um banhinho de alguidar, esperávamos a chegada do vendedor de gelados e de canudos de baunilha.

Era um senhor que vinha de outra terra, tinha uma máquina especial e fazia uns gelados belíssimos que eram o consolo da criançada da Aldeia.

Ao serão, tínhamos à nossa disposição os banquinhos, na rua, jogámos à macaca ou ao esconde esconde, e, de vez em quando, íamos ver as «comédias» ao Largo do Lagarto ou do que hoje se chama, Capitão Carpinteiro.

Levávamos uma cadeirinha para nos sentarmos, em círculo, e um pequeno grupo de comediantes divertiam-nos com as suas habilidades e brincadeiras inofensivas. No final dávamos uns tostões para ajudar a família dos comediantes.

Hoje tudo isto parece irreal, mas existiu e é preciso que fique registado na vida da minha gente, a forma simples, humilde e feliz, como eram passados os verões numa pequena Aldeia do Alentejo.