Ilustração de Elisabete Fiel
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Percebe-se nos olhares, marejados de lembranças, nos sorrisos, em festa.

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Assaltam-nos memórias de outros, os da infância, polvilhados de algodão doce, pegajoso, pipocas, salgadas, torrão e gemas, e gelados artesanais que, junto ao lago, nos deliciavam.

Regressam os sons, os mesmos, dos foguetes em alarme, das bandas em desfile, pelas ruas estreitas e apinhadas de gente, a nossa, os Zés Pereiras e Cabeçudos, que nos intimidavam, os tambores que nos ribombavam na alma. Emoção.

Mergulhamos nos aromas das manhãs frescas que com valentia enfrentamos, de olhos postos no arraial noturno, nos carroceis de outrora, nos carros de choque confidentes de namoricos.

Repete-se a romaria, das saias à desgarrada, das pandeiretas em riste e das castanholas a estalar.

Nuno Franco Pires
Nuno Franco Pires, escritor

Aos primeiros acordes do hino volta a comoção incontrolada, a pele a delatar o arrepio que calamos: passado e presente.

Instala-se a saudade, escorre a lágrima, repete-se o sortilégio. Por instantes estamos todos, outra vez, milagre do Padroeiro, expressão maior da paixão que transborda.

Caminhamos em silêncio, em penitência e agradecimento, abafamos o ruído que gritado da alma eclode num rebentar de foguetes e morteiros. Cheira a pólvora, cheira a vida.

Confortam-nos abraços, incontáveis, repetidos a cada festa, como se dela fizessem parte, como se fossem a própria. E são.

Sente-se o pó que reveste os sapatos, assalta-nos o aroma do frango assado no momento, da roda do brinhol na fritura.

Revemos sorrisos familiares, que não vendo amiúde gravámos no coração. Tudo é mais intenso e pairamos qual balão desenlaçado da mão de uma criança. Eleva-nos o coração, cheio.

Na mata a tradição cumpre-se, encavalitam-se as tendas e a festa faz-se à mesa, desenrolando-se metros de conversas. Tanto para contar, um tanto igual para ouvir. Encontros fortuitos que, em alguns casos, se repetem a cada São Mateus.

Tudo parece novo, sendo velho.

Somos outra vez romeiros, errantes, prostrados, vergados pelo peso da fé, da saudade incomensurável dos que partiram e voltam a cada dia de Pendões na tradição que se repete, na prece balbuciada, na emoção contida, no sentimento que não se descreve, mas que nos distingue, cordão invisível que nos une e nos torna únicos, que nos faz seus filhos e nos grita na garganta: somos elvenses.