Regresso à escola
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Imagino aquela menina interessada em saber sempre mais e mais, devoradora de livrinhos que lhe chegavam às mãos, uns emprestados, outros a cair de velhinhos e guardados no entre-forro, como recordação da 4ª classe que o pai tinha feito, nesse tempo, com distinção.

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Chegando as festas da Escola, era sempre chamada para declamar ou cantar a solo ou em dueto.

Não sei como as professoras nela descobriam essas virtudes, pois sempre foi uma criança discreta, até reservada, falando apenas, quando era interrogada.

As suas brincadeiras nunca a desviaram do cumprimento das suas tarefas escolares. E, nesse tempo, o ensino era baseado em muito trabalho de escrita repetitiva, longas contas com imensos algarismos, provas reais e dos nove, imprescindíveis e um cronómetro sempre pronto a registar quem, na aula, era mais rápido e eficiente.

Não tinha relógio de pulso mas tinha um controle perfeito do tempo. Não chegava atrasada, porque a pontualidade fazia parte integrante da sua mente. Não gostava de faltar às aulas e mesmo adoentada, lá ia de sacola fazendo de conta que nada se passava.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo, a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho

Só uma vez teve que ceder à doença e ser levada para casa, cheia de febre, com uma primo-infeção.

Gostava de se rodear de outras crianças, mais novas, a quem ensinava o que sabia e, pelos vistos, as outras gostavam do que lhes transmitia.

Nas tardes de final de verão, ao serão, reunia as vizinhas, no seu quintal e inventava uma tela de cinema feita com um pano branco de lençol, nas costas de uma cadeirinha, uma vela acesa e com as mãos na retaguarda, imitava um coelhinho, uma ave, um cão a correr, o que deliciava as outras crianças.

Brincadeiras inocentes mas com sentido estético e atrativo.

Ser criança num tempo de pobreza e tantas privações era um desafio à própria natureza, uma batalha travada com a serenidade de um combatente leal aos seus princípios, feliz e com o coração a transbordar de bondade e esperança num amanhã desconhecido mas que sonhava descobrir e nele encontrar a luz do paraíso, das fantasias, da força de ser alguém que pudesse sair do pequenino mundo onde nascera e que sempre amaria.

Se hoje fosse possível voltar à escola e ser criança, queria ser a mesma menina que fui, nada mudaria, porque não há qualquer sombra de arrependimento ou tristeza no meu passado.

A humildade é a maior grandeza que permanece em mim, o gosto de trabalhar, de aprender, de repartir com os outros e os incentivar a progredir humanamente, completam a personalidade desta menina da Aldeia que sempre quis ser professora.