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Lembro-me de a minha Mãe me contar que, em bebé, quando eu chorava, a melhor forma de me calar era molhar a chupeta em mel.

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Fiquei gulosa toda a vida.

Os doces, os bons doces, são a minha perdição.

Refiro os bons doces porque tenho um paladar exigente, não aceita qualquer coisa.

Para mim, nada há mais delicioso que um bom doce alentejano!

Muito se tem falado do doce característico de Elvas – cidade, o Sericaia, ou, como muitos lhe chamam, Sericá ou Cericá…mas poucos o sabem confecionar na perfeição, começando por mim.

Aliás, só há umas dezenas de anos tive o privilégio de saborear uma bela fatia de Sericaia.

Na minha Aldeia de Santa Eulália, a doçaria era muito mais pobre, na generalidade.

Aliás, os doces que sempre vi fazer à minha Mãe, com exceção dos «Nógados» que são enriquecidos com o mel, eram apenas confecionados com farinha e banha de porco, acrescentando-lhes o sabor da raspa de limão ou laranja, a canela e o açúcar e nos biscoitos não podia faltar o chá de erva – doce e os ovos, claro.

“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo , a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho
“Canto a minha terra, a minha gente! Este povo que amo, a terra arada, o sol ardente!”, Graça Foles Amiguinho

Os ovos entravam em pequenas quantidades pois nem toda a gente tinha galinhas e de outra forma, mais difícil se tornava dar à família algum docinho.

O Sericaia seria, certamente, sobremesa das casas senhoriais onde, naturalmente, nada faltava.

Mas hoje, felizmente, os tempos mudaram e para uma maioria dos alentejanos é mais fácil saborear os doces de que gostam.

Aqui vos deixo, para quem nunca experimentou fazer em casa uma Sericaia, a receita tradicional:

Sericaia

Ferver o leite com a casca de limão e o pau de canela.
Deixar arrefecer um pouco e dissolver a farinha no leite.
Entretanto, bater as gemas muito bem com o açúcar e juntar ao preparado anterior.
Bater as claras em castelo firme, eu junto-lhe uma pitada de sal grosso e misturar tudo cuidadosamente.
Untar um prato grande de barro com manteiga.
Verter às colheradas grandes o preparado no prato e polvilhar com canela em pó.
Levar ao forno quente (230º) durante cerca de 30 minutos.

Mas a tradição é servir o Sericaia com ameixa em calda, as famosas ameixas de Elvas, das quais nos orgulhamos tanto.

É preciso, também, saber prepará-las com arte para que alcancem o sabor e doçura desejada.

Ameixas de Elvas

Num tacho grande levam-se ao lume 2 litros água e quando começar a ferver, deitam-se dentro as ameixas e deixam-se cozer.
Depois retiram-se da água quente e introduzem-se em água fria, deixando-as assim por 12 horas, renovando-se a água por quatro vezes, ou seja, de 3 em 3 horas.
Dissolve-se o açúcar nos 15 dl de água e leva-se ao lume até formar Ponto de Pasta.
Em seguida mergulham-se na calda, as ameixas, e retiram-se quando a calda levantar de novo fervura.
Leva-se a calda de açúcar ao lume até ganhar agora Ponto de Espadana e depois, deita-se esta calda, sobre as ameixas.
No dia seguinte, escorre-se a calda de novo para o tacho e leva-se ao lume para ganhar Ponto «Assoprado» e com este novo ponto regam-se mais uma vez as ameixas.
Ao fim de três dias repete-se a operação e leva-se a calda ao lume para ganhar Ponto de Fio.
Mantêm-se as ameixas na nova calda, durante oito dias, findos os quais se escorrem, se lavam, e se deixam secar ou se deixam ficar na calda guardadas em frascos esterilizados e tapados.
Depois, é só fazer um chá de limão ou de erva cidreira, cortar o Sericaia em fatias, colocar sobre elas uma ameixa e regá-las com a calda!

Bom proveito!

Saiba a verdadeira origem do Sericaia!

Sericaia é um doce de origem indiana que veio para o Brasil via Portugal, na época da colonização.

Segundo Câmara Cascudo, em texto escrito na década de 1960, o sericaia era popular no Brasil.

Tratava-se de uma espécie de creme feito de leite, açúcar e ovos.

Diversas versões alteram a receita original, mas mantendo os seguintes pontos em comum: “o leite é fervido antes de serem acrescentados os demais ingredientes, a receita vai ao forno e tem consistência de creme”.

Cascudo descreve ainda em seu texto três versões do doce no Brasil: uma em Pelotas (RS), baseada no livro Doces de Pelotas (Porto Alegre (RS), 1959), de Arminda Mendonça Detroyat

– leva gemas, leite, clara, açúcar e manteiga, e é assado no forno;

outra, na Bahia – leva, no lugar do açúcar, rapadura e baunilha, podendo-se usar leite de coco no lugar do leite de vaca.

A versão paulista adiciona fatias de pão embebidas no leite, em camadas, polvilhadas com açúcar e canela e fatias de queijo fresco.

Para Cascudo, a receita de Pelotas era a que mais se aproximava da original que foi perdida.

Referências ↑ ab Revista História Viva, edição 21, pg. 14.