Símbolos Na Terra

Opinião - Risoleta Pinto Pedro
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No passado dia 21 de Agosto uma efeméride levou-me ao Alentejo. Completaram-se, nesse dia, 12 anos da partida de António Telmo, o filósofo de Almeida que adoptou Estremoz e o Alentejo em geral, para a sua vida, residência e família, trabalho e criação de uma obra. O seu corpo está no cemitério de Estremoz e eu queria lá ir. Desde o momento em que ali foi depositado, a configuração deste lugar dos que partem mudou muito, cresceu significativamente e isso dificultou a localização da pedra onde actualmente a sua antiga casa, corpo tornado inútil por desnecessário, habita. O processo racional de procura através da leitura metódica dos nomes de cada lápide estava a ser doloroso pelos 38 graus de um dia de Agosto neste lugar sem sombras onde apenas as sombras habitam como memórias, pois acredito, a luz que foram há-de estar num outro sítio ou ordem, se assim lhe quisermos chamar. Necessário era mudar de “método”, e foi neste momento de abandono, que aos nossos pés se apresentou, resplandecente, a pedra baixa e branca, orlada pela corda manuelina para uns, templária para outros, iniciática sem dúvida, em forma de cúpula, que distingue este sítio de repouso de todos os que o rodeiam. É de uma beleza comovente pela simplicidade e pela riquíssima condensação simbólica. Assim foi António Telmo em vida. Simples e profundo. Belo e modesto. Sóbrio e resplandecente. Estimulante e misterioso. Aí ficaram os três girassóis solares fazendo um pouco de companhia à alva pedra, até o calor os vencer.

Foi este, um dia de visitar as sombras dos sóis. Antes, estivera na minha terra, S. Vicente, onde a memória dos avós me convidou a visitar o que deles resta de material. Muito mais pequeno e regular, este cemitério, não foi difícil “encontrá-los”, mas a ajuda foi preciosa. Ainda antes de entrar é possível ver os dois altos ciprestes, postados de cada lado da álea que divide o espaço, iguais na altura e tão diferentes na configuração. O da esquerda forma um círculo, como um seio ou um regaço, o outro ergue-se fálico, como uma chama ou lança. Ao pé do primeiro os avós maternos, do lado do segundo, os paternos. O símbolo a funcionar em toda a sua essência. Nos números de cada campa obtemos, pela soma, o número quatro, esse indicador da terra, esse lugar de onde se emerge e aonde um dia, ainda que depois de longa viagem, se regressa.

Após pensamentos de honra e gratidão, fomo-nos afastando. Os passos tinham um objectivo, que era o caminho da antiquíssima igreja de 1586. Atrás, o encantador jardim onde a meditação pode adquirir a forma de movimento e passos, ou de imobilidade, de recolhimento ou contemplação da beleza. É pequeno, mas mimoso e bem cuidado. Ao lado, uma propriedade designada por horta, outrora habitada por meus avós maternos. Gosto de pensar este conjunto como um jardim horto. No meio do largo, em frente à igreja, a multicentenária oliveira, rugosa de tanta vida, que assistiu aos acontecimentos vários das nossas vidas, refiro-me às gerações dos que vieram antes de mim e me permitiram nascer. A minha tia brincou em volta dela, a minha mãe e o meu pai têm as suas fotos de casamento neste cenário que hoje contemplo. É isto a terra, a matéria na mais nobre missão de acolhimento, beleza, alimento e sucessão. Lugar da alma na viagem para o espírito.

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A articulista actua como Colaboradora do Portal Elvasnews e o texto acima expressa somente o ponto de vista da autora, sendo o conteúdo de sua total responsabilidade.

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Risoleta C Pinto Pedro
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.