Opinião - Risoleta Pinto Pedro
   Publicidade   
   Publicidade   

Nem tudo é aquilo que parece e este título não é, de todo, o que sugere.

   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 
   Pub 

Falemos de rádio, aquele com cujos sons cresci. Em pequena, a televisão já existia na minha vida, mas fora de casa e a espaços. O rádio foi, sem exagero, a canção de embalar da minha infância. Só depois a televisão. Com ela acompanhei os festivais da canção, aprendia as canções e cantava-as ao espelho. Ainda hoje me emociono quando ouço algumas, por isso é-me impossível ajuizar se têm ou não qualidade. Não me é possível avaliar com imparcialidade algo que me comove tanto. Quanto à rádio, não me recordo de ter tido nesse tempo problemas em sintonizar a Emissora Nacional, e mesmo o programa dois (não me recordo como se chamava) que comecei a ouvir bem cedo. Eram fáceis de encontrar, e sem ruídos. Havia ruídos, sim, à noite, quando o meu avô nos visitava, mas fiquei a saber depois que era quando buscava emissores que eram proibidos no país. De qualquer modo, mesmo esses ruídos só se davam a ouvir a quem estivesse perto do aparelho, porque era arriscado ouvirem-se na rua ou em casa dos vizinhos, porque nunca se sabia… O meu avô dizia que eram as ondas curtas e eu nunca percebi como é que as ondas que podiam chegar a ouvintes a milhares de quilómetros poderiam ser curtas. Foi um dos meus primeiros paradoxos científicos.

RádioQuando ia ao Alentejo não era fácil sintonizar as rádios nacionais. Próximos que estávamos da raia, as rádios espanholas impunham-se-nos (ainda hoje isso acontece) e tornávamo-nos ouvintes dos programas do país ao lado. Para mim era delicioso, continua a sê-lo, ajudava-me a imaginar que estava em Espanha, o supra-sumo da emoção.

Ainda hoje tenho rádios espalhados por toda a casa, são uma espécie de comunicação com Deus, com o passado, com o futuro e com o lado mais profundo de mim. Por vezes, o rádio que está na cozinha recusa-se à clareza habitual e soa roufenho e impreciso, quase como aqueles sons proibidos do rádio do meu avô. Nessas alturas o som melhora quando me aproximo, como antena. E isso recorda-me a necessidade, naqueles recuados tempos de clandestinidade, de nos aproximarmos do rádio, porque nenhum som poderia ultrapassar as nossas paredes. Percebo então que o rádio, esse objecto cheio de gente dentro, não pretende mais do que proporcionar-me a excitante experiência que era ouvir o proibido, num misto de coragem e terror. Só é possível sentir saudades do que me assustava, porque havia a presença de um avô, ousado e firme, que nunca mentiu à menina de olhos encantados de espanto.

Artigo anteriorCovid-19 | Portugal regista quatro mortes e 485 novos casos nas últimas 24 horas
Próximo artigoPortugal regista mais uma morte e 436 casos de Covid-19
Risoleta C. Pinto Pedro nasceu em S. Vicente e Ventosa, Elvas. Vive em Lisboa, foi professora de língua e literatura numa escola de ensino artístico e é escritora nas áreas do romance, novela, conto, poesia, teatro, crónica periodística e radiofónica (“Antena 2") , ensaio, cantata, ópera, musical, canção (libretos para os compositores Jorge Salgueiro e Paulo Brandão), alguns posteriormente editados em BD e CD. Excluindo parcerias e colectâneas ou revistas, tem, a título individual, vinte e duas publicações, sendo as mais recentes: Mater, Útero de Romã; O sol do Tarot de Sintra; Happy Meal, Manjar Sentimental (ficções), Cantarolares com Sabor Azul (poesia), Àvida Vida (poesia) A Literatura de Agostinho da Silva, essa Alegre Inquietação e António Telmo, Literatura e Iniciação (ensaios). Prémios: poesia pela SLP; na narrativa: A Criança Suspensa, Prémio Ferreira de Castro; e O Aniversário, Prémio APE. É membro do Gabinete de Estudos Agostinho da Silva e do Projecto António Telmo, cujas obras vem estudando e sobre as quais vem escrevendo e fazendo palestras. Prepara, em parceria, a biografia de António Telmo.