Paula Freire, opinião
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O mundo anda triste. A luz dos rostos apaga-se em sombras que lutam por novos sorrisos ao encontro de uma esperança que, apesar dos lutos e da névoa cinzenta, ainda teima em fazer-se presente no coração de tantos. Todos, cada um à sua maneira, ainda queremos acreditar que há e haverá um espaço para além do presente. E em cada rosto que observo, silencioso, sob as máscaras anónimas de quem comigo se cruza, a soletrar vazios de uma compreensão desta nossa finitude, que tanto tarda em chegar-nos, tenho recordado o livro de Amalia Decker Márquez que há uns anos li com inesperada curiosidade. Uma narrativa de ficção onde a autora nos leva pelas terras de Cochabamba e La Paz de uma Bolívia em revolução nas décadas de 50 e 60 adentro, onde pedaços de uma sangrenta história de lutas armadas se entrelaçam com os afetos e sentimentos profundos vividos pelas personagens ali retratadas.

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“Tardes de Chuva e Chocolate”. Desde as primeiras páginas me foi estranho entender como a uma história que reflete, assim, um dia a dia de conflitos e confrontos que constroem a vida e a identidade de uma família, de uma sociedade, de um povo, cabe um título que apela a essa tranquilidade refletida na doce e plácida monotonia de húmidas tardes, com aroma e sabor a chocolate quente. Só com enorme avanço na leitura, a narradora nos dá a conhecer esta espécie de metáfora com que a autora intitulou o seu livro.

Talvez seja isso mesmo a lei do mundo e da vida. Da nossa vida. Da vida de cada um. Talvez nunca entendamos o presente sem descobrir, por experiência, o mistério do futuro. Os porquês de hoje talvez residam sempre lá longe. Às vezes, num longe demais que agora nos sufoca, nesta ânsia desmedida pelo tudo que queremos perceber. Os milhões de mortes causados por este vírus gigantesco, que nos ensombram o peito e das quais diariamente tendemos a fugir em pensamento, para não doer tanto. Os milhões de mortes que a história da humanidade transporta em si como um peso, que vamos descarregando em livros perdidos em estantes de madeira e metal. Os milhões de mortes sem sentido que a comunicação social, diariamente, nos vai debitando de uma forma mais ou menos fácil de nos entrar pelo coração dentro e que tentamos sacudir, para não nos pesar tanto no olhar a espreitar em desalinho pelas máscaras que nos escondem o fundo da alma.

Tardes de Chuva e ChocolateA reposta a esses porquês de um quotidiano de lutas e batalhas tão nossas, que constroem a história pessoal e a identidade única do que somos, talvez espreite tímida mais à frente, num futuro enevoado e impreciso. Como na história de Amalia Decker Márquez, onde no meio de tantas dores e ambiguidades, a única certeza da personagem maior, era que um bom chocolate quente em tardes de chuva, lhe permitiria recuperar silenciosamente culpas partilhadas de desafetos somados.

Um livro terá sempre muito para nos ensinar nas entrelinhas, tão para além das palavras visíveis. Por vezes, ensina-nos também a abraçar essa humildade da certeza da nossa pequenez perante um universo gigantesco. Obriga-nos a ficar em silêncio para nos escutarmos a nós mesmos e perceber que talvez nunca tenhamos oportunidade de vermos reveladas as respostas a esses nossos porquês. O sabor de um chocolate quente numa tarde de chuva recorda-nos que a vida é brevidade. É um segundo… o tempo que dura a nossa eternidade.

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Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside actualmente em Vila Nova de Gaia. Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas das Relações Humanas e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada. Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias. O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora de imagens de capa de obras poéticas lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021. Nos últimos anos, descobriu-se também no seu ‘amor’ pela arte da fotografia onde aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.