Início Ciência O tempo cura todas as feridas… mas mais rápido durante o dia

O tempo cura todas as feridas… mas mais rápido durante o dia

COMPARTILHE
   Publicidade   
   Publicidade   

Diz-se que o tempo cura todas as feridas, umas mais rápido que outras. Um estudo publicado esta semana na revista Science Translational Medicine veio mostrar que isto é verdade, literalmente. O estudo liderado pelo investigador John S. O’Neill, do MRC Laboratory of Molecular Biology (Cambridge, UK), mostrou a influência do ciclo circadiano na cicatrização de feridas.

Sara Porfírio, investigadora em Glicobiologia no Complex Carbohydrate Research Center, instituto de investigação associado à Universidade da Geórgia (EUA).

O ritmo circadiano é um ciclo de aproximadamente 24h que regula os processos fisiológicos dos seres vivos (plantas, animais, fungos e cianobactérias). Este ciclo é afectado por vários factores, tais como variações de luz e temperatura, mas controla também vários processos fisiológicos e metabólicos tais como o sono, e sabe-se agora, a cicatrização de feridas. Pensava-se há bastante tempo que este “relógio biológico” se encontrava no cérebro, numa região do hipotálamo designada núcleo supraquiasmático, que recebe sinais provenientes dos olhos. Contudo, estudos recentes mostraram que algumas células noutras partes do corpo (pulmões, fígado) são capazes de determinar o seu próprio tempo, embora até aqui não se soubesse como.

Outro exemplo de células com um “relógio interno” são os fibroblastos. Fibroblastos são células essenciais para a cicatrização de feridas que preenchem o espaço criado por um arranhão e estabelecem a base para o crescimento de nova pele. Dada esta capacidade dos fibroblastos, a equipa de O’Neill decidiu procurar proteínas cujos níveis flutuassem com ritmos diários e descobriram que as proteínas que gerem a formação do esqueleto de actina das células são diurnas. Como estas proteínas “dizem” aos fibroblastos para se deslocarem para o local da ferida, esta descoberta implica que a hora do dia em que o ferimento ocorre afecta a velocidade de cicatrização.

Os investigadores testaram então esta hipótese com células crescidas em laboratório e observaram que os fibroblastos preenchem ferimentos mais rapidamente durante o dia do que durante a noite (veja o vídeo abaixo). “É visível a olho nú, quando as células são feridas apenas com uma diferença de 8h, mas em diferentes fases do ciclo circadiano, as feridas diurnas são corrigidas e as nocturnas arrastam-se.”, diz O’Neill.

Esta descoberta foi também validada em modelos animais. Os investigadores observaram que a pele de ratinhos ferida durante o seu período activo cicatrizava mais rápido do que a pele ferida durante o período de descanso, e que esta diferença coincide com os resultados de células em cultura. Cerca do dobro de fibroblastos migrou para o local das feridas diurnas em comparação com o número de células que migrou para feridas nocturnas.

Para concluir o estudo, a equipa de O’Neill procurou provas deste efeito em humanos. Para tal, o grupo avaliou registos da Base de Dados Internacional de Queimaduras (International Burn Injury Database), que regista, entre outros parâmetros, a hora do dia a que ocorreu o ferimento. A análise desta base de dados mostrou que queimaduras nocturnas demoravam, em média, mais 11 dias a cicatrizar do que queimaduras ocorridas de dia.

Contudo, no seguimento deste estudo, O’Neill realça a importância de ensaios clínicos devidamente controlados para confirmar as descobertas relatadas. O investigador especula que, se confirmado, este efeito pode contribuir para uma recuperação mais rápida de cirurgias, desde que estas sejam marcadas de acordo com o ritmo circadiano de cada indivíduo.

Segundo os investigadores, a razão para este efeito pode ser uma adaptação evolutiva. Dado que é mais provável que uma pessoa seja ferida enquanto está acordada, é possível que o nosso corpo esteja “programado” para responder mais rapidamente durante o dia.

   Publicidade